Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

Mini coleóptero com listas e buracos


Encontrar insetos é sempre entusiasmante, nunca sei o que há-de aparecer, nunca sei que formas e cores irei ver, mas no final de contas sou sempre surpreendido mesmo que já tenha visto insetos parecidos, e mesmo que me esqueça com o passar dos tempos, será sempre surpreendente. Este diminuto coleóptero, será por certo um caso desses. Com um tamanho menor que dois milímetros, supera-se maior que a lente na ponta de uma ervita, e revela-se um pequeno ser calmo e tranquilo ali pousado ao sabor das temperaturas suaves do começo deste inverno e deste dia em geral nublado. Junto a uma linha de água, em vegetação herbácea daquela que é muito comum e que se desenvolve pujante, não só por isso mas pela bordadura de um campo de cultivo próximo, lá estava ele, uma pequena mancha preta num grande mar de verde verdejante, e de um solo com pedacinhos de folhas de salgueiros, vindas de uma pequena galeria caducifólia e entrelaçada.
Mas o propósito é esse diminuto escaravelho que me impressionou com a textura do seu corpo, uma alternância de um padrão riscado de cima para baixo que já conhecia neste tipo de animais, com aqueles buracos simétricos até à cauda. Adoro, e é aquele dizer que me vem de nunca ter visto isto... Gostava de saber mais...


Um lugar que ainda conserva uma essência de campo...

Campo Raso, Sintra
By Rui Faria

Alfavaca-dos-montes "exótica"


Se me perguntassem qual ou quais das plantas eu achasse que teria um exotismo de outras paragens longínquas, eu diria que uma delas seria concerteza a Erophaca baetica ssp. baetica. Talvez por ser do norte e não esteja habituado a uma vistosidade e exuberância destas fora do habitual. Só mesmo aqui no sudoeste da europa, depois de percorrer os meandros dos matagais, é que esta planta surge acantonada com outras e arbustos, com as suas abundantes folhas simétricas, perfeitamente alinhadas, e com uma bordadura peluda, que parece que o fotógrafo exagerou na nitidez, ... na composição...


As flores até podem nem ser altamente coloridas nem garridas, mas vêem-se a quilômetros de distância, já para nem falar das vagens, esses grandes sacos de sementes, que nem o verde os faz ser discretos.


O azul do lagarto-de-água


Reza a lenda, que um grande réptil feroz, vencido pela guerra com o deus unicórnio, foi condenado a vaguear pela terra, envergando para toda a eternidade o intenso azul do céu na sua cabeça, como sinal da sua derrota. Ele, o deus, ordenou que o seu corpo verde guerreiro envereda-se um tom especial do seu reino. Nada melhor e mais vibrante que o azul ciano, nada mais puro e mais belo que essa cor maravilhosa e dominante, que avisará qualquer réptil ou viajante da sua inevitável derrota com o deus unicórnio. E ele, réptil feroz, ostentará esse ornamento enquanto a punição terminar e eternidade tiver fim.

Pois sem histórias, a humanidade não se teria desenvolvido, nem havia conhecido, tamanha beleza e animal místico que o nosso lagarto-de-água. Uma jóia preciosa da península ibérica, que deveria ser escrupulosamente protegida, amada e respeitada, como um ser exuberante e exótico, uma herança de tempos antigos, que hoje caça em terrenos húmidos e junto a cursos fluviais. Nem sempre é fácil encontrá-lo, e às vezes quando se encontra, a mistura de azul com verde é tão inebriante, que a admiração é o primeiro ponto a sentir.
Por favor: NÃO cortem a vegetação autóctone ribeirinha... A nossa jóia necessita dessa vegetação para caçar ou comer os seus alimentos favoritos...

Melitaea voa, trevo branco fica...


Embora fosse intenção imortalizar a Fabaceae em questão, a magnífica borboleta da família Nymphalidae também aí ficou, o seu bater de asas, e a forma elegante com que se desloca pelo ar.

Crânio de Erinaceus europaeus


Foi na Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, que este ouriço-cacheiro perdeu a vida devido a causas naturais ou doença, deixando para trás depois de uma limpeza pelos seres necrófagos, os espinhos e o seu típico crânio. De salientar os impressionantes incisivos, necessários para um predador insétivoro por excelência.


Terra dos Carvalhos - um alvarinho gigante


Apesar de não aparentar grande qualidade de imagem, este gigantesco carvalho-alvarinho foi muitas vezes uma cancela de passagem que me barrava sempre o caminho naquela estrada de acesso ao coração das serras do Gerês. Como é possível tamanha espécie de árvore atingir tamanho tão belíssimo, cada tronco, cada ramo cada folha, cada textura do seu ritidoma e o musgo que a acompanha... simplesmente belíssimo...  Mas não só é o seu tamanho que impressiona, mas o facto de albergar tantos seres vivos diferentes, tanto, que é difícil enumerar. Quantas espécies de briófitas e pteridófitas alberga este majestoso ser, quantos líquenes, e invertebrados?, ui... sem contar a passagem de pequenos mamíferos, e os símbolos dos Quercus, os chapins...
 Tenho saudades daquele carvalho que me embalava pelas ricas manhãs viajadas, em plena Terra dos Carvalhos, do seu ar imponente,... 

Fritilária um caso de raridade


Isto de ser raro ou abundante tem muito que se lhe diga, e nem sempre é fácil compreender por que determinada espécie é mais rara que outras.
Pode-se dizer que esta Fritillaria lusitanica var. lusitanica é uma raridade incerta, pois com tanto habitat disponível e pouco perturbado, seria de esperar que fosse muito populosa. Esta frase simples, serve também para muitas outras centenas de espécies de plantas, com o mesmo tom exato de afirmação. Se por um lado os estudos lusitânicos desta planta que serão por certo escassos, não acompanham a situação da espécie do ponto de vista mais antiquíssimo, para poder fazer um análise resumida, da sua história e o porquê de ser pouco abundante. Pondo de lado o tema científico que é sempre importante, se percorrermos os trilhos de colinas calcárias atravessadas por filões podemos ver em primeira mão as suas densidades. Uma aqui, outra ali, dois, três ou quatro exemplares juntos e pouco mais. É como se fossem solitárias, perdidas pelos montes, em busca de um bom habitat, de um sítio perfeito. Mas pode ser esta uma excepção à regra, e espero que seja, pois é me impossível percorrer toda a zona ocidental, na época de floração ideal. 

Parelha de cogumelos


Não apanho cogumelos, mas talvez um dia apanhe, um ou dois, para comer, ou para viver, sem nunca entrar num patamar de apanhar dez, vinte ou cestas inteiras, como muitos fazem. Dizem os especialistas que eles são como os frutos, e que se colhidos com sabedoria e bom senso, pouco ou nenhum dano é realizado no ser fúngico principal, o micélio. Mas e aqueles que não têm escrúpulos, e se dedicam a arrasar colónias inteiras de cogumelos comestíveis (ou não) para vender pelo chamado mercado negro, por quantias desconhecidas. Pessoas pobres, com poucos rendimentos, ou apenas para ampliar os que já os têm em abundância. Pois, sem regulamentação não sei o que será de vastas populações de cogumelos. Mas será que a apanha intensiva consciente faz algum dano sério, sabendo que o cogumelo é um fruto? Ambientalmente quero pensar que não, que os danos são mínimos, quando a apanha é feita por especialistas, mas, no entanto, faz-me muita confusão, e presumo que seja a maioria uma realidade, a apanha descontrolada e furiosa.
Por mim, gosto de os admirar, de os apreciar, com a visão, com uma fotografia, ás vezes nem lhes toco, mas até costumo os separar de galhos e folhas para a composição da imagem ser mais aprimorada. Isto pode soar um pouco a xoninhas, mas que o seja, se puder utilizar a visão como admiração por estes incríveis seres, e não o cérebro e o estômago para os saborear... E não me fico por boletos, russulas, amanitas, phallus e outros, adoro "saborear" à minha maneira aqueles microscópicos, de formatos e cores incríveis, em substratos diversos, que me põe literalmente de cabeça para baixo, mas todos eles me arrancam um sorriso...
Não quero apanhar cogumelos, mas quero vê-los, mesmo até, sem me importar em que espécie estão eles inseridos, como é o caso desses dois aí em cima...

Salticidae cor de fogo


Eis que estás magníficas e pequeninas aranhas se mostram sob as pedras calcárias. Cada pedra uma aranha, ou até mais que uma. Ou até macho e fêmea.


Nunca deixo de me impressionar com a coloração desta magnífica espécie...

Os estames da lagarta


Nas flores compostas da calêndula, esta pequena lagarta se passeia... Ou se alimenta...

Algas atlânticas


O rico património botânico marinho muitas vezes ignorado emerge à luz das marés.


Várias espécies de algas, de várias cores, discretas, claro...


No litoral Atlântico, ainda prosperam, em costas límpidas e selvagens. Servindo de abrigo para uma grande diversidade de formas de vida...

Pisco curioso contemplador


Os dias outonais que se seguem depois do estio, fazem com que os padrões de comportamento do pisco-de-peito-ruivo, Erithacus rubecula se alterem significativamente no que concerne à proximidade com os humanos. Atrás de moitas, atrás de arbustos, ou fingindo que faz outra coisa, ele aproxima-se, entoando curtos sons, ou se faz silencioso, quando a demasiada proximidade já deixou cair o pano da sua timidez. Mas fá-lo o tempo o suficiente para poder-se admirar o peito alaranjado que delicia qualquer naturalista. Um símbolo do outono, um visitante de inverno, um pássaro maravilhoso que perpetua no campo intocado, nas sebes verdes e húmidas, nos arbustos recatados, sob as ténues luzes pardas e quentes das primeiras e últimas horas dos dias europeus.

Castinçal do grande monte calcário


Para mim, viajante do norte, que sempre encontrou castanheiro em algum recanto do noroeste peninsular, que sempre viu as suas folhas amarelo-acastanhadas, que nem sempre esses castanheiros se pujam de ouriços avantajados como os seus parentes do leste interior, mas, que definitivamente, se me embalam as formas de um ser arbóreo de aspeto temperado, nortenho, fresco e boscoso, que a paisagem e o "sapiente" deixaram existir.
Deslocando-me para sul, ao longo das montanhas de cintura que apertam a bacia lusitânica, acabo em um lugar, tão branco e puro, tão mediterrânico e quente, que se encontrar aí algum bosque temperado, será a ilusão perfeita, delírio botânico...
Mas o assombro aparece quando a descida de um caminho acontece, e lá no fundo, mas lá no alto da montanha, eis que o grandioso aparece.
Primeiro são os ramos entrançados, depois são os troncos acastanhados e por último é a hera que trepa caminhos longínquos num abraço que vai perdurar, ninguém sabe quanto... Quantos anos eles têm, e quantos anos eles terão, quanta vida eles abrigam? Ninguém sabe, mas eu sei, e vi com os olhos do viajante nortenho, que estes castanheiros também se querem igualar, querem ser temperados, húmidos e fechados, para alguém se perder e fixar de uma vez agora, que no sul, especialmente nesta montanha dorsal branca, hã uns castanheiros perdidos de encantar...

Algures na Serra de Montejunto...

Geneta, mémorias de Rodríguez de la Fuente

Nunca poderei esquecer o estranho efeito que em mim produziram as primeiras peles de geneta que vi nos já distantes dias da minha infância. Transportava-as no seu carro um daqueles almocreves que comerciavam pelas povoações de Castela. Num molhe copioso e matizado amontoavam-se flamejantes raposas, suaves martas e fuinhas, furões e meia dúzia de genetas. Então, eu não sabia ainda que os belos animais de pele cinzento-prateada, malhada de negro no corpo e adornada com uma tão longa e anelada cauda, se chamavam genetas. Depois de mexer bem nas peles de genetas do almocreve cheguei à conclusão errada de que deviam ser de gato.
Talvez a minha imaginação infantil transformasse em património exclusivo dos felinos a pele ricamente manchada e as garras afiadas e falciformes, mas o meu primeiro exame zoológico não estava muito errado, pois as genetas têm algo de gatos e cães, embora não estejam aparentadas com qualquer destes géneros animais.
Com efeito, os homens de ciência classificam estas gráceis criaturas entre os viverrídeos, carnívoros caracterizados pelo corpo longo, membros curtos e fortes, com cinco dedos nas extremidades, garras semi-retrácteis e glândulas perianais que produzem um intenso odor almiscarado.


 Mas, para nos apercebermos da gracilidade e completas qualidades físicas da geneta, seria conveniente observá-la em plena natureza, onde muito poucas vezes o naturalista teve oportunidade de a encontrar, pois trata-se de um predador noturno, de hábitos recatadíssimos. Iremos recolher quantos dados fidedignos tivermos dos seus costumes e, juntando-os às nossas observações de campo, apresentaremos a documentação que descreve o périplo noturno da geneta.
Na concavidade recatada de um velho tronco de carvalho, uma cabeça curiosa surge bruscamente. Contemplando-a pormenorizadamente, podem descobrir-se na sua face os mais genuínos traços do predador noturno. Os olhos, grandes e brilhantes, têm agora as negras pupilas totalmente abertas; mas, se as víssemos de dia, poderíamos verificar que estreitam, transformando-se em duas pequenas ventas verticais, semelhantes às dos gatos. Magnífica adaptação da íris para melhorar a visão noturna. Os grandes pavilhões auriculares, por seu lado, conferem-lhe um ouvido agudíssimo, e o focinho, trémulo, rosado e húmido, é a mais acabada expressão do olfato desenvolvido.


A geneta já desce, quase sem peso, pelo áspero tronco de carvalho. Nem sequer o gato poderia comparar-se-lhe em agilidade. De ramo em ramo, sem dar um passo em falso, sem fazer um ruído, a sua longa cauda compensa e equilibra como um balancim os inverosímeis movimentos. As pequenas mãos, digitígradas, de palmas nuas e sensíveis, aproveitam com as suas garras em forma de gancho qualquer aspereza da madeira para assentar. No solo, entre os fetos e a erva crepitante, a geneta avança com tanta segurança como pelos ramos. O seu trotezito leva-a até à margem do riacho, onde a temperatura é mais benigna e são maiores as possibilidades de caçar roedores. Nas suas deslocações noturnas tira bom partido da pele malhada, porque os desenhos negros sobre o fundo acinzentado decompõem a sua silhueta.


A geneta caçadora detém-se súbitamente. Um odor detestável chega até ao seu nariz com um sopro da brisa. Um par de saltos conduzem-na silenciosamente até à copa de um salgueiro segundos antes de aparecer, bojuda e segura de si mesmo, a velha raposa que anda durante todo o inverno por aquelas paragens. A geneta <<sabe>> muito bem que as suas armas de caçador não podem competir com as da raposa, com as do gato-montês, para não falar das do lince ou do lobo. A situação da geneta no equilíbrio natural é, portanto, das mais difíceis de sustentar sem sucumbir mais tarde ou mais cedo, porque é, ao mesmo tempo, predador e presa.
Tem de conquistar todas as noites alguns troféus para não morrer de fome e deve ainda pôr-se a salvo dos seus muitos inimigos, incluindo o bufo-real e as grandes águias. Daí os seus perfeitos dispositivos de segurança e ataque. Sem eles, a espécie não teria podido sobreviver, e há que ter em conta que a geneta é um carnívoro muito mais antigo que os seus citados competidores.


Mas o salgueiro salvador transforma-se rapidamente em teatro das operações cinegéticas da nossa protagonista: uma subtil emanação substituiu, na copa, o desagradável odor da raposa. A geneta ficou como petrificada e, lentamente, a sua face aguda, coroada pelas altas orelhas, vai girando como uma pantalha de radar na direcção de uma bola branca e negra que se eleva sobre um ramo natural da velha árvore. A meio metro da pega que dorme, todo o organismo da pequena caçadora se encontra na máxima tensão; e, como se um raio misterioso tivesse levado a sua ansiedade até à mente da pega, este tira súbitamente a cabeça de entre as penas e o seu perfil de corvídeo recorta-se vigilante contra o disco da Lua. Por uns décimos de segundo, a ave e o mamífero contemplam-se fixamente. Talvez o ranger de uma folha seca tenha despertado a pega e os seus finíssimos sentidos lhe tenham permitido localizar a sua inimiga, mas imediatamente a inerte massa cinzenta se desdobra como uma mola. As garras esticadas como um leopardo em miniatura; a boca entreaberta, brilhando a dentição perfeita; a incontida avalancha arrasta tudo: uns ramos que se interpunham no seu caminho, algumas folhas esquecidas pelo vento e a massa agitada e queixosa da ave. E tudo cai sobre a pradaria gelada. Mas os aguçados caninos da geneta quebraram o pescoço da pega.


As genetas, consideradas como nocivas porque destroem alguns coelhos, talvez perdizes e poucas aves de capoeira, são animais muito úteis para a agricultura, porque a base da sua alimentação é constituída por roedores: ratos, ratos-do-campo, ratos-d'água, ratos-dos-pomares, ratos-toupeiros, etc. Mas se a sua insaciável atividade no contrôle de roedores não compensasse bastante os poucos danos que pode causar entre as espécies cinegéticas, bastaria o fator estético que representa a sua beleza para que todos os amantes da natureza detivessem, tão cedo quanto possível, a insensata perseguição de que estes e outros belos predadores europeus estão a ser objecto. E basta lançar o olhar pelo mapa de distribuição desta espécie para se verificar que a geneta apenas se pode encontrar na Europa, no sul de França, onde já é muito rara, ou na Península Ibérica. Ela é uma jóia de que não temos o direito de privar os nossos descendentes, porque seria muito triste que as crianças de amanhã tivessem de aprender nos livros que um precioso animal, chamado geneta, predador de roedores, aves, répteis, batráquios e insetos, fora exterminado pelos seus avós. Os seus piores inimigos são as armadilhas e o veneno dos bicheiros, porque dos seus muitos competidores ecológicos já se libertou desde há milénios. Animal gracioso, belíssimo e domesticável - foi o primeiro "gato" dos egípcios - não deve desaparecer!

   Félix Rodríguez de la Fuente

Imagens captadas com recurso a uma trail camera, em um vale remoto de Mafra.


A geneta prospera...
Nos bosques, zonas florestais, áreas rurais, um pouco por todo o recanto oeste da Península Ibérica.


Pequenos mundos de, cor...


Não estando habituados a um mundo de olhar que não é nosso, o mundo macro, revela formas estranhas, tenebrosas, curiosas e intrigantes.


Para que servem ornamentos, cores e feitios? Porque são tão diversas as texturas?


Na imagem macro podemos encontrar um mundo escondido...
Sério, pulando a palha que escrevi em cima, estas imagens, são das que mais me dá prazer registar, talvez seja o ímpeto de cor e formas espetaculares que são raras no mundo dos meus olhos sem macro. Nós somos capazes de criar grandes mundos de cor entusiasmantes e alegres, no entanto seguimos uma linha perpétua de moda sempre escura e "cinzenta", que ninguém quer contrariar, ... Mas o mundo microscópico não quer saber, e usa todo o tipo de ornamentos floridos, e todo o tipo de beleza que eu ou tu possamos pensar. É isso que entusiasma, ... Quantas macros estão escondidas numa flor?, ... E numa semente? ... E no dorso de um inseto?
É isso que irei descobrir... 

o banho de sol da mosca


Até num outono tão chuvoso como em anos anteriores, estes pequenos seres, se entregam em bons banhos de sol, quando o astro se revela perante a nebulosidade densa que não dá tréguas... Os dípteros, ou esta magnífica mosca, descansa perante a luz dourada de um fim de tarde na praia de São julião.

Escondido o percevejo


 Tudo vale na evolução, até mesmo adquirir a cor das plantas onde o animal habita, pode ser uma vantagem, pode ser suficiente para escapar de uma morte rápida.


Cada tom de cor, padrão e textura tem um propósito,... Só precisa é de ser descoberto!

Scilla peruviana, as flores!




São de longe, uma das flores mais portentosas e exóticas, que o oeste peninsular nos dá... a conhecer! A sua mais ou menos raridade, lembra uma caça às trufas na hora de a procurar, e quando se encontra, uma ou mais flores, ou até pequenas populações, os queixos caem de admiração, e os olhos emergem das órbitas. Mas, tal como as trufas, estas também não me apanham a deitar-lhes uma mão ceifadora... gosto de observar... e maravilhar-me... com este encantador azul!

O outono dos choupos


Os ciclos da natureza, são mutáveis, giram e rodam, constantemente, como uma mudança inevitável e omnipresente no meio ambiente, que a sensibilidade deixa fluir, para com ela, embeber um cocktail de sensações que só cada um irá conhecer.


Todos conhecemos os choupos, em particular, os da espécie Populus nigra, que sendo uma árvore de porte considerável, é até bem fácil de se encontrar. Bem fácil de se identificar, com as suas folhas únicas e pendentes, com o seu tronco algo escuro, e em muitos exemplares, um ritidoma irregular com protuberâncias mais ou menos globulares, e de onde partem alguns pequenos rebentos folhosos.


Uma das mais coloridas árvores ibéricas do outono, com o vibrante amarelo a impor--se na paisagem e a engalanar, quem por elas passam.


A horta do calcário numa aldeia (de Sintra!)


É um privilégio poder cuidar de um pedacinho de terras calcárias do interior da grandiosa Sintra, mas mais do que isso, viver sobre eles a tempo inteiro, e sentir, que todos os dias, há um acontecimento natural que me enche as medidas... é emocionante...


Mais que uma horta para comer, a horta do calcário, dá-me vida, pequenos e grandes seres, que vivem ao ritmo das estações, do tempo e do clima, e até da própria pá da enxada, que molda a terra às vontades do eu homem, mas que também o eu dá descanso para que todas estas espécies possam prosperar. Acaba por ser um refúgio para um grande número de espécies animais sobretudo, já os outros grupos são mais errantes, e nem sempre aparecem como eu gostaria (pelas limitações do terreno, pelo uso e tipo de solo), eles são os fungos e algumas plantas.
Mas se isto é um refúgio, porque a Perdiz cá veio passar a noite? Isso mesmo, para meu espanto, seria talvez um dos poucos animais que eu diria que dificilmente bateriam as asas por estas bandas, no entanto, esteve aqui, e deixou marcas, para poder ser relembrada, e espero, que não seja "chumbada"...

Excrementos de Perdiz.
Quando as hortaliças são deixadas a crescer, impõe-se tempo para observar se algum dos troncos espalhados estrategicamente, já fez crescer cogumelos, ou outros fungos encrustados... Não, ou ainda não, parece que as abundantes chuvas deste outono ainda não acordaram as sementes da catita plantação fúngica, ... Terei de esperar (e não são para comer, são para as pulmonata, vulgo lesmas, que às vezes as devoram primeiro, ... primeiro até que os meus olhos os devorem, ... esses cogumelos)
Mas se os troncos não são, ou não forem desejados pelos cogumelos que tanto anseio, então os que já consegui fotografar, ludibriaram-me, e apareceram onde eles bem entenderam! Na palha sob a nogueira apareceram grandes e brancos, nos excrementos de cavalo, enterrados na terra para fertilizar as hortaliças também apareceram 4 espécies de pequenos cogumelos, e até no musgo do penedo calcário estavam dois... Pois é, afinal quem é que comanda o ritmo da vida?


As plantas são as rainhas deste pequeno espaço, mas desengane-se quem ache, que as hortícolas, frutícolas, e as ornamentais, compõe o grosso da vegetação, não, são sobretudo aquelas "daninhas" que eu tanto gosto, mas também uma boa percentagem de flora rupícola ruderal. São as urtigas de duas espécies diferentes, havia uma terceira, mas a mania da limpeza debaixo da nogueira, lamentavelmente acabou com ela, enfim, ... são as Parietaria, que gostam de invadir os muros de pedra, mas também protegem os interstícios e chamam os invertebrados para lá das suas cortinas, e são os fetos, menos abundantes, e toda uma panóplia de briófitas e líquenes, que chamam casa a este calcário cinzento.


Se a terra me dá tanto, não posso ser egoísta, em não retribuir-lhe da mesma forma...
Às vezes isso significa não intervir, não perturbar, e deixar, tão simples assim, que aquelas espécies para além de mim, possam coexistir, num ritmo sem fim...


Adoramos os pintassilgos...


Veneramos os líquenes...


By Rui Faria MR

Pedra de água


Como uma baleia de água doce, a pedra de água aguenta-se firme à maior chuvada dos últimos anos, qual ribombar de águas crepitantes, que em velocidade acelerada, se aproximam da dita rocha, e se esvaem, qual liquído precioso, límpido e charmoso, que nunca mais irá ver a nascente, mas que viverá, eternamente, no mar...

O pequenino cogumelo dos robles


Naqueles dias, em que a chuva molhou a terra grandiosamente, e fez emergir, os frutos de uma nova geração, os Carvalhais, abençoam, quem por bem vier, e quem sabiamente souber aprender, que nem sempre se olha para as coisas grandes, com um olhar devorador, e rápido... Uma paragem no bosque, olho para baixo, ajoelho- me, e um novo mundo aparece... os pequeninos cogumelos, aqueles a quem eu humildemente chamo de cogumelos pé de agulha ( onde terei eu ouvido isso?! ), e então por entre as folhas do mágico Quercus robur e suas bolotas recém caídas, lá está o objeto da minha admiração, aquele pequenino cogumelo... dos robles...

Regeneração de Salix arenaria pós fogo


Acho que o tema fogo, nunca foi tão controverso como nos últimos tempos cá no país, e são centenas de estudos, textos, comentários em redes sociais, e bate bocas, um pouco por todo o lado. Uns na mesma direção em busca da verdade, ou melhor em busca da realidade, outros, debatem-se uns contra os outros, disparando mentiras e invenções, outros, são atacados sem dó nem piedade, na sua tentativa de desmistificação... Certo é, como as coisas andam, pelos vistos preferimos mesmo megaincêndios. Eu cá até os "dispensava" sejam grandes ou pequenos, mas o facto, é que eles aparecem mais tarde ou mais ou cedo, quer queiramos quer não, faz parte da paisagem, na nossa paisagem mediterrânica. Agora, sem dúvida, que se em vez de termos pequenos incêndios, cíclicos, bem "geridos" em vez de megaincêndios, as coisas já estariam bem melhor encaminhadas, e para esse ponto, já existem vontades e soluções, que creio fazerem parte do pacote de pessoas constantemente atacadas, como havia falado em cima. Como alguém disse não há soluções milagrosas, mas sim, é possível reverter o abondono das terras, e a falta de gestão, a que uma boa parte do país foi votado. Como faremos? ...

Por último e porque o elemento principal até seria o salgueiro-anão Salix arenaria, se não me desviasse numa intro de reflexão, mostro então, a regeneração de um exemplar numa vala da extensa mata dunar de pinheiros das Gandâras de Mira, em boa parte consumida pelos fogos de Outubro de 2017. Os meses passam, e o negro da vegetação, foi dando lugar, a nova vida, novos rebentos, novos desafios, mais biodiversidade?, e sobretudo uma paisagem diferente...

Os bullatus


Os primeiros Ranunculus bullatus já florescem por entre os lapiás calcários do interior das terras de Sintra. Sempre impressionante e espetacular, o simples facto de numa região onde as flores se obrigam à primavera, esta quebra as velhas regras, e floresce em pleno outono, quando a chuva copiosa é mais presente, e o frio tépido é seu irmão. Logo que cheguem os dias ensolarados da estação, a multiplicação dos bullatus far-se-á de maneira explosiva, em locais propícios e especiais, mas sempre no sopé da "rocha mãe", o senhor calcário.

O pequeno cogumelo azul das acácias


São raras as exceções no que toca a elementos exóticos na composição das imagens que faço, e esta é uma dessas. Ignorando as folhas da Acacia longifolia, e isolando este magnífico fungo, registo a imagem de vários ângulos diferentes, pouco me importando desta vez com a presença dos então supostos elementos exóticos. Mas é isso mesmo que a palavra exótico traz consigo, a beleza de outras paragens, que nem sempre se enxerga como devia ser.



E até as pequenas plântulas da exótica australiana crescem viçosamente às barbas de outros exemplares da mesma espécie do cogumelo em destaque. 
Se por um lado, a problemática de exóticas em Portugal pode ser um problema, por outro lado, são essas, que em certos casos, dão "casa" a numerosas espécies de seres vivos, ainda que o facto seja constantemente negado por razões diversas, e no entanto posso constatar que por vezes são até lugares mais "ricos".

A espécie é designada por Clitocybe odora. Identificação cedida por José Andrade.