Nunca poderei esquecer o estranho efeito que em mim produziram as primeiras peles de geneta que vi nos já distantes dias da minha infância. Transportava-as no seu carro um daqueles almocreves que comerciavam pelas povoações de Castela. Num molhe copioso e matizado amontoavam-se flamejantes raposas, suaves martas e fuinhas, furões e meia dúzia de genetas. Então, eu não sabia ainda que os belos animais de pele cinzento-prateada, malhada de negro no corpo e adornada com uma tão longa e anelada cauda, se chamavam genetas. Depois de mexer bem nas peles de genetas do almocreve cheguei à conclusão errada de que deviam ser de gato.
Talvez a minha imaginação infantil transformasse em património exclusivo dos felinos a pele ricamente manchada e as garras afiadas e falciformes, mas o meu primeiro exame zoológico não estava muito errado, pois as genetas têm algo de gatos e cães, embora não estejam aparentadas com qualquer destes géneros animais.
Com efeito, os homens de ciência classificam estas gráceis criaturas entre os viverrídeos, carnívoros caracterizados pelo corpo longo, membros curtos e fortes, com cinco dedos nas extremidades, garras semi-retrácteis e glândulas perianais que produzem um intenso odor almiscarado.
Mas, para nos apercebermos da gracilidade e completas qualidades físicas da geneta, seria conveniente observá-la em plena natureza, onde muito poucas vezes o naturalista teve oportunidade de a encontrar, pois trata-se de um predador noturno, de hábitos recatadíssimos. Iremos recolher quantos dados fidedignos tivermos dos seus costumes e, juntando-os às nossas observações de campo, apresentaremos a documentação que descreve o périplo noturno da geneta.
Na concavidade recatada de um velho tronco de carvalho, uma cabeça curiosa surge bruscamente. Contemplando-a pormenorizadamente, podem descobrir-se na sua face os mais genuínos traços do predador noturno. Os olhos, grandes e brilhantes, têm agora as negras pupilas totalmente abertas; mas, se as víssemos de dia, poderíamos verificar que estreitam, transformando-se em duas pequenas ventas verticais, semelhantes às dos gatos. Magnífica adaptação da íris para melhorar a visão noturna. Os grandes pavilhões auriculares, por seu lado, conferem-lhe um ouvido agudíssimo, e o focinho, trémulo, rosado e húmido, é a mais acabada expressão do olfato desenvolvido.

A geneta já desce, quase sem peso, pelo áspero tronco de carvalho. Nem sequer o gato poderia comparar-se-lhe em agilidade. De ramo em ramo, sem dar um passo em falso, sem fazer um ruído, a sua longa cauda compensa e equilibra como um balancim os inverosímeis movimentos. As pequenas mãos, digitígradas, de palmas nuas e sensíveis, aproveitam com as suas garras em forma de gancho qualquer aspereza da madeira para assentar. No solo, entre os fetos e a erva crepitante, a geneta avança com tanta segurança como pelos ramos. O seu trotezito leva-a até à margem do riacho, onde a temperatura é mais benigna e são maiores as possibilidades de caçar roedores. Nas suas deslocações noturnas tira bom partido da pele malhada, porque os desenhos negros sobre o fundo acinzentado decompõem a sua silhueta.

A geneta caçadora detém-se súbitamente. Um odor detestável chega até ao seu nariz com um sopro da brisa. Um par de saltos conduzem-na silenciosamente até à copa de um salgueiro segundos antes de aparecer, bojuda e segura de si mesmo, a velha raposa que anda durante todo o inverno por aquelas paragens. A geneta <<sabe>> muito bem que as suas armas de caçador não podem competir com as da raposa, com as do gato-montês, para não falar das do lince ou do lobo. A situação da geneta no equilíbrio natural é, portanto, das mais difíceis de sustentar sem sucumbir mais tarde ou mais cedo, porque é, ao mesmo tempo, predador e presa.
Tem de conquistar todas as noites alguns troféus para não morrer de fome e deve ainda pôr-se a salvo dos seus muitos inimigos, incluindo o bufo-real e as grandes águias. Daí os seus perfeitos dispositivos de segurança e ataque. Sem eles, a espécie não teria podido sobreviver, e há que ter em conta que a geneta é um carnívoro muito mais antigo que os seus citados competidores.

Mas o salgueiro salvador transforma-se rapidamente em teatro das operações cinegéticas da nossa protagonista: uma subtil emanação substituiu, na copa, o desagradável odor da raposa. A geneta ficou como petrificada e, lentamente, a sua face aguda, coroada pelas altas orelhas, vai girando como uma pantalha de radar na direcção de uma bola branca e negra que se eleva sobre um ramo natural da velha árvore. A meio metro da pega que dorme, todo o organismo da pequena caçadora se encontra na máxima tensão; e, como se um raio misterioso tivesse levado a sua ansiedade até à mente da pega, este tira súbitamente a cabeça de entre as penas e o seu perfil de corvídeo recorta-se vigilante contra o disco da Lua. Por uns décimos de segundo, a ave e o mamífero contemplam-se fixamente. Talvez o ranger de uma folha seca tenha despertado a pega e os seus finíssimos sentidos lhe tenham permitido localizar a sua inimiga, mas imediatamente a inerte massa cinzenta se desdobra como uma mola. As garras esticadas como um leopardo em miniatura; a boca entreaberta, brilhando a dentição perfeita; a incontida avalancha arrasta tudo: uns ramos que se interpunham no seu caminho, algumas folhas esquecidas pelo vento e a massa agitada e queixosa da ave. E tudo cai sobre a pradaria gelada. Mas os aguçados caninos da geneta quebraram o pescoço da pega.

As genetas, consideradas como nocivas porque destroem alguns coelhos, talvez perdizes e poucas aves de capoeira, são animais muito úteis para a agricultura, porque a base da sua alimentação é constituída por roedores: ratos, ratos-do-campo, ratos-d'água, ratos-dos-pomares, ratos-toupeiros, etc. Mas se a sua insaciável atividade no contrôle de roedores não compensasse bastante os poucos danos que pode causar entre as espécies cinegéticas, bastaria o fator estético que representa a sua beleza para que todos os amantes da natureza detivessem, tão cedo quanto possível, a insensata perseguição de que estes e outros belos predadores europeus estão a ser objecto. E basta lançar o olhar pelo mapa de distribuição desta espécie para se verificar que a geneta apenas se pode encontrar na Europa, no sul de França, onde já é muito rara, ou na Península Ibérica. Ela é uma jóia de que não temos o direito de privar os nossos descendentes, porque seria muito triste que as crianças de amanhã tivessem de aprender nos livros que um precioso animal, chamado geneta, predador de roedores, aves, répteis, batráquios e insetos, fora exterminado pelos seus avós. Os seus piores inimigos são as armadilhas e o veneno dos bicheiros, porque dos seus muitos competidores ecológicos já se libertou desde há milénios. Animal gracioso, belíssimo e domesticável - foi o primeiro "gato" dos egípcios - não deve desaparecer!
Félix Rodríguez de la Fuente
Imagens captadas com recurso a uma trail camera, em um vale remoto de Mafra.
A geneta prospera...
Nos bosques, zonas florestais, áreas rurais, um pouco por todo o recanto oeste da Península Ibérica.