Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

A horta do calcário numa aldeia (de Sintra!)


É um privilégio poder cuidar de um pedacinho de terras calcárias do interior da grandiosa Sintra, mas mais do que isso, viver sobre eles a tempo inteiro, e sentir, que todos os dias, há um acontecimento natural que me enche as medidas... é emocionante...


Mais que uma horta para comer, a horta do calcário, dá-me vida, pequenos e grandes seres, que vivem ao ritmo das estações, do tempo e do clima, e até da própria pá da enxada, que molda a terra às vontades do eu homem, mas que também o eu dá descanso para que todas estas espécies possam prosperar. Acaba por ser um refúgio para um grande número de espécies animais sobretudo, já os outros grupos são mais errantes, e nem sempre aparecem como eu gostaria (pelas limitações do terreno, pelo uso e tipo de solo), eles são os fungos e algumas plantas.
Mas se isto é um refúgio, porque a Perdiz cá veio passar a noite? Isso mesmo, para meu espanto, seria talvez um dos poucos animais que eu diria que dificilmente bateriam as asas por estas bandas, no entanto, esteve aqui, e deixou marcas, para poder ser relembrada, e espero, que não seja "chumbada"...

Excrementos de Perdiz.
Quando as hortaliças são deixadas a crescer, impõe-se tempo para observar se algum dos troncos espalhados estrategicamente, já fez crescer cogumelos, ou outros fungos encrustados... Não, ou ainda não, parece que as abundantes chuvas deste outono ainda não acordaram as sementes da catita plantação fúngica, ... Terei de esperar (e não são para comer, são para as pulmonata, vulgo lesmas, que às vezes as devoram primeiro, ... primeiro até que os meus olhos os devorem, ... esses cogumelos)
Mas se os troncos não são, ou não forem desejados pelos cogumelos que tanto anseio, então os que já consegui fotografar, ludibriaram-me, e apareceram onde eles bem entenderam! Na palha sob a nogueira apareceram grandes e brancos, nos excrementos de cavalo, enterrados na terra para fertilizar as hortaliças também apareceram 4 espécies de pequenos cogumelos, e até no musgo do penedo calcário estavam dois... Pois é, afinal quem é que comanda o ritmo da vida?


As plantas são as rainhas deste pequeno espaço, mas desengane-se quem ache, que as hortícolas, frutícolas, e as ornamentais, compõe o grosso da vegetação, não, são sobretudo aquelas "daninhas" que eu tanto gosto, mas também uma boa percentagem de flora rupícola ruderal. São as urtigas de duas espécies diferentes, havia uma terceira, mas a mania da limpeza debaixo da nogueira, lamentavelmente acabou com ela, enfim, ... são as Parietaria, que gostam de invadir os muros de pedra, mas também protegem os interstícios e chamam os invertebrados para lá das suas cortinas, e são os fetos, menos abundantes, e toda uma panóplia de briófitas e líquenes, que chamam casa a este calcário cinzento.


Se a terra me dá tanto, não posso ser egoísta, em não retribuir-lhe da mesma forma...
Às vezes isso significa não intervir, não perturbar, e deixar, tão simples assim, que aquelas espécies para além de mim, possam coexistir, num ritmo sem fim...


Adoramos os pintassilgos...


Veneramos os líquenes...


By Rui Faria MR

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