Pintaste-te de tantas cores heterogéneas, nessa paleta geológica, que o teu leito as faz sobressair,... destaca tão belas texturas, e tão bela confusão admirada, e eu aqui especado a sentir... rocha desenhada na alvorada, rocha pintada sem artistas, leito límpido e águas frescas, riacho que desces a encosta, mostra-me ainda mais cores, mostra-me o vermelho, e eu entendo... mostra-me o verde das algas e eu admiro, une todas elas para meu espanto...
Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...
riacho pintura
Pintaste-te de tantas cores heterogéneas, nessa paleta geológica, que o teu leito as faz sobressair,... destaca tão belas texturas, e tão bela confusão admirada, e eu aqui especado a sentir... rocha desenhada na alvorada, rocha pintada sem artistas, leito límpido e águas frescas, riacho que desces a encosta, mostra-me ainda mais cores, mostra-me o vermelho, e eu entendo... mostra-me o verde das algas e eu admiro, une todas elas para meu espanto...
árvore despida (um homem)
Um dia, ali esteve sentado, contemplando, a imaginação de um homem que nunca se separa de um elo ligado ao seu coração e da força brutal de um mundo mágico, a vida que espreita de cada recanto observado, de cada pilar natural, um elo, quebrado por uma força maior, um elo da corrente que completa... Porque as sensações são palpáveis e o vento tem sabor?
E então ele levanta-se e diz adeus, prossegue caminho, trilho abaixo, estrada fora, caminhos incertos...
a humidade do rio
És tudo o que eu quero, o teu nevoeiro, e a tua bruma, senão é despida de um manto florestal invernal, só uma, e única, água fontaneira, de vida rochosa, e de musgos verdinhos, porque corres, névoa querida, porquê? ...pois!
Mas é na humidade fogosa, que me engalana as mãos estendidas, que absorvem uma energia que sinto e não minto quando me expresso, quando invento e sonho que os bosques permanecerão enevoados,... e são enganados aqueles que o percorrem de olhos fechados e de coração trancado, opah, dizes que as folhas pararam entre as pedras, no remanso da água calma que estagnou, mas só ali, porque a água corre, no seu leito, gelada... Ramos abertos e despidos, num abraço quente, e já não é frio nem gelado, uiii, enamorado, por essas cores, uiii, que profundo contraste húmido, que gotas que escorrem pelo ar denso, e que imenso é um só, que imensa é uma emoção, porque eles são dois, o verde e o castanho, qual não é o tamanho desse meu coração...
É no rio, sobre as pedras, é no leito, é o inverno e as folhas caídas,...
praia de Adraga e as gaivotas
Por momentos, de voar, na praia, e nos calcários prepotentes e engalanados, que se atravessam no caminho da orla costeira, das águas azuis-turquesa, e dessa beleza, intemporal mágica, que adorna essa paisagem. É o poiso preferido, é o recanto sossegado, é um ponto de passagem para o ser alado,...
Minha gaivota de asa escura, invernante, já sou amante tua...~
Sempre fui!
by Rui Faria
árvore despida
Árvore triste na sombra da manada, alerta e convicta que a vegetação ainda dará muitos nutrientes, ali próxima, naquela suave encosta, naquele monte duro das giestas e de incêndios antigos...
Árvore morta e solitária de ramos desapegados. beijados pelo ar frio matinal e pelo incessante e incansável tempo que passa por eles invisivelmente, e aparentemente sem causar dano ou injúria nos pálidos ramos candelabro, ramificação resistente, imparável e imóvel, desgastada, polida, velha, morta, um dia cairá...
serra da cabreira / by Rui Faria
Prunus lusitanica
O azereiro, árvore relíquia do terciário, chega até nós nos recantos mais intocados da península ibérica. Uma planta perenifólia tropical, representante de um tipo de floresta que já não mais existe, e que se perdeu face às bruscas mudanças climáticas. Este exemplar vegeta no vale glaciário do rio geres, encravado nas encostas de grande declive, acompanhado por carvalhos, plátanos e outros...
queda de neve húmida
Neve húmida que cais incessantemente do céu claro, branqueando a paisagem nesse tom monótono e homogéneo, como névoa que embacia o ar e se gela como flechas cortantes e agulhas voadoras... Neve húmida que cai lá de cima e ventos que a empurram, que a doseam, que fazem essa miríade gelada espalhar-se por cada recanto, cravando-se em um manto, e mais um vez a cor é o branco...
Serra que recebes essa neve húmida, que encharca e empapa a camada de solo, que gela à superfície, que esfria,... Ohh, neve...
o penedo da armeria
Oh que linda armeria, porque estás sozinha virada para o atlântico?, deixa lá, as tuas flores são magníficas! Pois é, que importa se o céu está nublado... Que importa se tu me vês aqui sentado a contemplar-te e a deliciar-me com o teu cantinho reconfortante... Tão bom...
Penedos de Leça ...
by Rui Faria
veios negros
Nas dunas recuadas de Maçeda, o recuo foi tanto que em determinadas alturas do inverno a porta dos lençois freáticos de água doce se abre e desagua por entre as águas salgadas do mar ali junto. Diga-se logo de passagem que é algo impressionante, é como se fosse uma nascente, mas em vez das montanhas, esta nasce junto do mar, onde todos os cursos de água desaguam, e que já vêm com centenas de kilómetros percorridos. O tom escuro dos veios advém do solo arenoso mais escuro por certo e de caratér antigo, por cima de lamaçais pré-históricos.
a urze rosa
Pois, canso-me de ver as flores da Erica umbellata carcomidas por algo que não sei bem ao certo mas que fico com o mistério latente e pulsante na minha mente. Se bem que há coisas que nunca serão desvendadas e outras que o são explicitamente sem nos darmos conta. Mas deleito-me com o rosa da urze rosada, desta urze rosácea, e que belo tom floral.
feto (o desenrolar)
Desenrolar dos fetos no bosque escuro, ultrapassado pelos raios de sol matinais, envoltos por cíclicas névoas místicas. Acelerando o tempo, damos conta que esse desenrolar se abre numa comunhão perfeita, num entre abrir de folhas que esperam para se soltar, uma de cada vez, uma a seu tempo, desprendem-se da bola que as formou até terminar a última folhinha da pontinha e o feto está terminado e bem desenvolvido, aberto à plena luz e de mão largas no solo daquele bosque, um adulto que já foi jovem e pequenino broto, verdinho, que despontou da terra húmida e fresca... fetos!!!
névoa e herbivoria
Na névoa negra e despida, envolta pela humidade suspensa e latejante e de um clima frio tipicamente montano, o garrano pasta na sua indiferença, no pasto raso e antigamente queimado, mas avança indiferente ao desabar da tarde e à escuridão que se avizinha, é como se a névoa envolvente oferecesse segurança sob um manto transparente mas denso e pontilhado por uma infinita quantidade de gotículas de água. As giestas querem ser árvores e resistem ás condições agrestes da serra alta, querem e algumas até o são de facto, mas as outras árvores já abandonaram o local à muito, deixando para trás o solo agreste e pedregoso atapetado pela vegetação rasa impulsionada pela herbivoria, que assim regenera espécies perdidas e ajuda aquelas em dificuldades, mas se a pressão for demasiada, o solo pedregoso pode voltar a ser uma realidade...
Outra vez dizer que as árvores morrem de pé, e o tronco dos pinheiros queimados permanece ereto e resistente ao passar do tempo e às potentes intempéries ou ao profundo sossego e solidão da montanha.
E nesses tempos passados a descer a encosta para não apanhar a escuridão que avança sob a paisagem a um ritmo veloz, surpreendentemente rápido na névoa cada vez mais densa. Perder-me e encontrar-me é nostálgico, mas na realidade não me perco, apenas me afasto ligeiramente do caminho plausível no descer daquela encosta, mas porque não?
O caminho é frio, mas o coração palpita-se quente e acolhedor pela magia de observar a conjugação dos elementos atmosféricos, astrológicos e geológicos...
cristas xistosas
Para oriente da serra de Pias, a terra parece que foi aspirada ou varrida, criando esta espetacular formação de cristas xistosas. Natural sim, mas influenciada obviamente por fatores externos e de caráter antrópico, como o pastoreio intensivo, o corte de árvores e a roça de matos, e naturalmente os incêndios cíclicos. É por estes recantos que visito uma vez e outra em busca de novas plantas, mas já sei que as conheço na sua maioria, de invertebrados se a época quente se propiciar ou de texturas geológicas, mas no final procuro algo, ... procuro o que não estou à espera, sem instintos, porque se há coisa que aprendi, foi que se esperarmos muito algo, essa espera torna-se em desespero, e só a sorte pode acabar imediatamente com esse desespero, ou por último o inesperado, que provoca aquele sorriso intemporal e que nunca se esquece!... o sorriso de, finalmente chegou, ou finalmente encontrei, ou finalmente sou...
Mas e o percorrer destas cristas com sabor a terras selvagens e lugares remotos...
Inolvidável...!
bosque mistério
Sobre a áurea do tempo misterioso, cai o pano de fundo no bosque mistério, portentoso, nos raios de sol que o atravessam, dilacerando emocionalmente o ambiente, e sempre, desde as mais belas manhãs ensolaradas, e desde a posição característica do astro rei. Oh que belo arvoredo pintado pela luz e a vida que se absorve no sentido e em um sentido, e agora neste lugar iluminado e os ritidomas na escuridão e à contra-luz. Sentindo na pele o calor quente, e eu estático, absorvendo e observando mais uma vez, com a sensação do solo húmido, mas a humidade sem a ver, com a sensação inexplicada e um meio que me atinge pela manhã... e nesta minha razão de ser, de abraçar algo, este bosque, abraçá-lo com a visão e caminhando delicadamente pelo solo empapado e molhado com a vegetação herbácea competindo muito lentamente por aquela luz escassa que penetra pelo meio das copas, ramos e raminhos, e folhas que já não existem das árvores de folha caduca, mas também pelas folhas das árvores exóticas, as usurpadoras sem culpa que tomaram este habitat...
Olhando para trás vejo o bosque nítido e bem formado, olhando para à frente vejo a contra-luz e apenas as formas, serenas e quietas bem ou não delineadas, se são assim essas formas!... A Rubus encavalita-se, sobe-se a si mesma e precipita-se para cima, para os lados, para... expande-se na dominância e dominando mesmo o baixo estrato florestal e sufoca as pequeninas plantas que já não mais espaço têm, e partem, e disseminam-se noutras terras livres e airosas, para prosseguir um ciclo, ou mais um e outro, e por aí fora. Mas deixo a sensação outra vez tomar conta de mim e do meu corpo, e até os cheiros e odores, fundem-se numa experiência própria e única para meu deleite, quase uma união abraçada, ou um abraço caloroso e apertado que tanto faz bem, ... e o tempo pára, e será que parou? Aqui no bosque misterioso, no bosque...
Vale de Cabeda
by Rui Faria
Linaria triornithophora
Flores de agulhas rosadas no meio da vegetação incensa, vistosamente escondidas e maravilhando os olhares penetrantes que atrevidamente entram pelos arbustos dando de caras com três flores, três belos e belas formas de destaque floral, um apêndice ereto que as leva até à luz, até à fase do seu crescimento climáxico. Mas de costas voltadas e de cara à cara com o entorno apertado daquela vegetação que as viu nascer.
Folde Oeste da serra da Cabreira.
"a ilha das gaivotas"
Na verdade, ilha, foi para criar um certo ênfase e empolgação que este banco de areia a norte do Furadouro, poderá fazer lembrar carinhosamente uma ilhota, e em jeito de infância, apontar o dedo para lá e dizer, olha a ilha!!! Isto é quase um especial para as crianças que possuem uma imaginação muito produtiva, repleta de questões e sonhos sem fim, que se vão perdendo na idade adulta, mas porque eles se perdem?, se o entorno, nosso ambiente, está repleto de motivos pulsantes para sorrir e viver... As crianças têm as histórias e os sonhos, mas já os mais velhos e sábios recontam-nas no saber da experiência acumulada em décadas passadas. E nessa idade revivem um pouco da criança verdadeira que um dia foram...
E então eu uso a minha veia de criança, e vejo os pássaros ali poisados na areia escura sob o céu e as nuvens, já o mais sábio explica que são gaivotas oriundas dos países do norte da europa que por cá passam o inverno, nomeadamente a gaivota-de-patas-amarelas e a gaivota-de-asa-escura... e estas repousam na tranquilidade desse banco de areia a descoberto da maré baixa, mas criado pelo recuo da costa dunar, e acumulado na frente marítima.
Mas a criança quer correr livre pela praia e nem sequer passa pela cabeça em ser friamente gozada pelos outros, isto se fosse um adulto, ou poderá pensar-se que é um maluquinho! Mas aquele homem e mulher que o faz sem prestar importância a esses dizeres é mesmo um grande homem ou uma grande mulher de bem consigo mesmo, ...mas não corras para junto das gaivotas, pára ali, e segue a correr alegremente pela praia, de pés descalços, sente os grãos de areia finos e suaves desta praia, desvia-te para a leve rebentação e molha-os e refresca-te, não importa o frio, não importa o calor, não importa o vento,...
Não percas a criança que há em ti, porque se a perderes, os sonhos perdem-se também...
Liberdade... Vida... Amor...e Paz...
by Rui Faria
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