Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

Mini coleóptero com listas e buracos


Encontrar insetos é sempre entusiasmante, nunca sei o que há-de aparecer, nunca sei que formas e cores irei ver, mas no final de contas sou sempre surpreendido mesmo que já tenha visto insetos parecidos, e mesmo que me esqueça com o passar dos tempos, será sempre surpreendente. Este diminuto coleóptero, será por certo um caso desses. Com um tamanho menor que dois milímetros, supera-se maior que a lente na ponta de uma ervita, e revela-se um pequeno ser calmo e tranquilo ali pousado ao sabor das temperaturas suaves do começo deste inverno e deste dia em geral nublado. Junto a uma linha de água, em vegetação herbácea daquela que é muito comum e que se desenvolve pujante, não só por isso mas pela bordadura de um campo de cultivo próximo, lá estava ele, uma pequena mancha preta num grande mar de verde verdejante, e de um solo com pedacinhos de folhas de salgueiros, vindas de uma pequena galeria caducifólia e entrelaçada.
Mas o propósito é esse diminuto escaravelho que me impressionou com a textura do seu corpo, uma alternância de um padrão riscado de cima para baixo que já conhecia neste tipo de animais, com aqueles buracos simétricos até à cauda. Adoro, e é aquele dizer que me vem de nunca ter visto isto... Gostava de saber mais...


Um lugar que ainda conserva uma essência de campo...

Campo Raso, Sintra
By Rui Faria

Alfavaca-dos-montes "exótica"


Se me perguntassem qual ou quais das plantas eu achasse que teria um exotismo de outras paragens longínquas, eu diria que uma delas seria concerteza a Erophaca baetica ssp. baetica. Talvez por ser do norte e não esteja habituado a uma vistosidade e exuberância destas fora do habitual. Só mesmo aqui no sudoeste da europa, depois de percorrer os meandros dos matagais, é que esta planta surge acantonada com outras e arbustos, com as suas abundantes folhas simétricas, perfeitamente alinhadas, e com uma bordadura peluda, que parece que o fotógrafo exagerou na nitidez, ... na composição...


As flores até podem nem ser altamente coloridas nem garridas, mas vêem-se a quilômetros de distância, já para nem falar das vagens, esses grandes sacos de sementes, que nem o verde os faz ser discretos.


O azul do lagarto-de-água


Reza a lenda, que um grande réptil feroz, vencido pela guerra com o deus unicórnio, foi condenado a vaguear pela terra, envergando para toda a eternidade o intenso azul do céu na sua cabeça, como sinal da sua derrota. Ele, o deus, ordenou que o seu corpo verde guerreiro envereda-se um tom especial do seu reino. Nada melhor e mais vibrante que o azul ciano, nada mais puro e mais belo que essa cor maravilhosa e dominante, que avisará qualquer réptil ou viajante da sua inevitável derrota com o deus unicórnio. E ele, réptil feroz, ostentará esse ornamento enquanto a punição terminar e eternidade tiver fim.

Pois sem histórias, a humanidade não se teria desenvolvido, nem havia conhecido, tamanha beleza e animal místico que o nosso lagarto-de-água. Uma jóia preciosa da península ibérica, que deveria ser escrupulosamente protegida, amada e respeitada, como um ser exuberante e exótico, uma herança de tempos antigos, que hoje caça em terrenos húmidos e junto a cursos fluviais. Nem sempre é fácil encontrá-lo, e às vezes quando se encontra, a mistura de azul com verde é tão inebriante, que a admiração é o primeiro ponto a sentir.
Por favor: NÃO cortem a vegetação autóctone ribeirinha... A nossa jóia necessita dessa vegetação para caçar ou comer os seus alimentos favoritos...

Melitaea voa, trevo branco fica...


Embora fosse intenção imortalizar a Fabaceae em questão, a magnífica borboleta da família Nymphalidae também aí ficou, o seu bater de asas, e a forma elegante com que se desloca pelo ar.

Crânio de Erinaceus europaeus


Foi na Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, que este ouriço-cacheiro perdeu a vida devido a causas naturais ou doença, deixando para trás depois de uma limpeza pelos seres necrófagos, os espinhos e o seu típico crânio. De salientar os impressionantes incisivos, necessários para um predador insétivoro por excelência.


Terra dos Carvalhos - um alvarinho gigante


Apesar de não aparentar grande qualidade de imagem, este gigantesco carvalho-alvarinho foi muitas vezes uma cancela de passagem que me barrava sempre o caminho naquela estrada de acesso ao coração das serras do Gerês. Como é possível tamanha espécie de árvore atingir tamanho tão belíssimo, cada tronco, cada ramo cada folha, cada textura do seu ritidoma e o musgo que a acompanha... simplesmente belíssimo...  Mas não só é o seu tamanho que impressiona, mas o facto de albergar tantos seres vivos diferentes, tanto, que é difícil enumerar. Quantas espécies de briófitas e pteridófitas alberga este majestoso ser, quantos líquenes, e invertebrados?, ui... sem contar a passagem de pequenos mamíferos, e os símbolos dos Quercus, os chapins...
 Tenho saudades daquele carvalho que me embalava pelas ricas manhãs viajadas, em plena Terra dos Carvalhos, do seu ar imponente,... 

Fritilária um caso de raridade


Isto de ser raro ou abundante tem muito que se lhe diga, e nem sempre é fácil compreender por que determinada espécie é mais rara que outras.
Pode-se dizer que esta Fritillaria lusitanica var. lusitanica é uma raridade incerta, pois com tanto habitat disponível e pouco perturbado, seria de esperar que fosse muito populosa. Esta frase simples, serve também para muitas outras centenas de espécies de plantas, com o mesmo tom exato de afirmação. Se por um lado os estudos lusitânicos desta planta que serão por certo escassos, não acompanham a situação da espécie do ponto de vista mais antiquíssimo, para poder fazer um análise resumida, da sua história e o porquê de ser pouco abundante. Pondo de lado o tema científico que é sempre importante, se percorrermos os trilhos de colinas calcárias atravessadas por filões podemos ver em primeira mão as suas densidades. Uma aqui, outra ali, dois, três ou quatro exemplares juntos e pouco mais. É como se fossem solitárias, perdidas pelos montes, em busca de um bom habitat, de um sítio perfeito. Mas pode ser esta uma excepção à regra, e espero que seja, pois é me impossível percorrer toda a zona ocidental, na época de floração ideal. 

Parelha de cogumelos


Não apanho cogumelos, mas talvez um dia apanhe, um ou dois, para comer, ou para viver, sem nunca entrar num patamar de apanhar dez, vinte ou cestas inteiras, como muitos fazem. Dizem os especialistas que eles são como os frutos, e que se colhidos com sabedoria e bom senso, pouco ou nenhum dano é realizado no ser fúngico principal, o micélio. Mas e aqueles que não têm escrúpulos, e se dedicam a arrasar colónias inteiras de cogumelos comestíveis (ou não) para vender pelo chamado mercado negro, por quantias desconhecidas. Pessoas pobres, com poucos rendimentos, ou apenas para ampliar os que já os têm em abundância. Pois, sem regulamentação não sei o que será de vastas populações de cogumelos. Mas será que a apanha intensiva consciente faz algum dano sério, sabendo que o cogumelo é um fruto? Ambientalmente quero pensar que não, que os danos são mínimos, quando a apanha é feita por especialistas, mas, no entanto, faz-me muita confusão, e presumo que seja a maioria uma realidade, a apanha descontrolada e furiosa.
Por mim, gosto de os admirar, de os apreciar, com a visão, com uma fotografia, ás vezes nem lhes toco, mas até costumo os separar de galhos e folhas para a composição da imagem ser mais aprimorada. Isto pode soar um pouco a xoninhas, mas que o seja, se puder utilizar a visão como admiração por estes incríveis seres, e não o cérebro e o estômago para os saborear... E não me fico por boletos, russulas, amanitas, phallus e outros, adoro "saborear" à minha maneira aqueles microscópicos, de formatos e cores incríveis, em substratos diversos, que me põe literalmente de cabeça para baixo, mas todos eles me arrancam um sorriso...
Não quero apanhar cogumelos, mas quero vê-los, mesmo até, sem me importar em que espécie estão eles inseridos, como é o caso desses dois aí em cima...

Salticidae cor de fogo


Eis que estás magníficas e pequeninas aranhas se mostram sob as pedras calcárias. Cada pedra uma aranha, ou até mais que uma. Ou até macho e fêmea.


Nunca deixo de me impressionar com a coloração desta magnífica espécie...

Os estames da lagarta


Nas flores compostas da calêndula, esta pequena lagarta se passeia... Ou se alimenta...

Algas atlânticas


O rico património botânico marinho muitas vezes ignorado emerge à luz das marés.


Várias espécies de algas, de várias cores, discretas, claro...


No litoral Atlântico, ainda prosperam, em costas límpidas e selvagens. Servindo de abrigo para uma grande diversidade de formas de vida...

Pisco curioso contemplador


Os dias outonais que se seguem depois do estio, fazem com que os padrões de comportamento do pisco-de-peito-ruivo, Erithacus rubecula se alterem significativamente no que concerne à proximidade com os humanos. Atrás de moitas, atrás de arbustos, ou fingindo que faz outra coisa, ele aproxima-se, entoando curtos sons, ou se faz silencioso, quando a demasiada proximidade já deixou cair o pano da sua timidez. Mas fá-lo o tempo o suficiente para poder-se admirar o peito alaranjado que delicia qualquer naturalista. Um símbolo do outono, um visitante de inverno, um pássaro maravilhoso que perpetua no campo intocado, nas sebes verdes e húmidas, nos arbustos recatados, sob as ténues luzes pardas e quentes das primeiras e últimas horas dos dias europeus.

Castinçal do grande monte calcário


Para mim, viajante do norte, que sempre encontrou castanheiro em algum recanto do noroeste peninsular, que sempre viu as suas folhas amarelo-acastanhadas, que nem sempre esses castanheiros se pujam de ouriços avantajados como os seus parentes do leste interior, mas, que definitivamente, se me embalam as formas de um ser arbóreo de aspeto temperado, nortenho, fresco e boscoso, que a paisagem e o "sapiente" deixaram existir.
Deslocando-me para sul, ao longo das montanhas de cintura que apertam a bacia lusitânica, acabo em um lugar, tão branco e puro, tão mediterrânico e quente, que se encontrar aí algum bosque temperado, será a ilusão perfeita, delírio botânico...
Mas o assombro aparece quando a descida de um caminho acontece, e lá no fundo, mas lá no alto da montanha, eis que o grandioso aparece.
Primeiro são os ramos entrançados, depois são os troncos acastanhados e por último é a hera que trepa caminhos longínquos num abraço que vai perdurar, ninguém sabe quanto... Quantos anos eles têm, e quantos anos eles terão, quanta vida eles abrigam? Ninguém sabe, mas eu sei, e vi com os olhos do viajante nortenho, que estes castanheiros também se querem igualar, querem ser temperados, húmidos e fechados, para alguém se perder e fixar de uma vez agora, que no sul, especialmente nesta montanha dorsal branca, hã uns castanheiros perdidos de encantar...

Algures na Serra de Montejunto...