Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

Fritilária um caso de raridade


Isto de ser raro ou abundante tem muito que se lhe diga, e nem sempre é fácil compreender por que determinada espécie é mais rara que outras.
Pode-se dizer que esta Fritillaria lusitanica var. lusitanica é uma raridade incerta, pois com tanto habitat disponível e pouco perturbado, seria de esperar que fosse muito populosa. Esta frase simples, serve também para muitas outras centenas de espécies de plantas, com o mesmo tom exato de afirmação. Se por um lado os estudos lusitânicos desta planta que serão por certo escassos, não acompanham a situação da espécie do ponto de vista mais antiquíssimo, para poder fazer um análise resumida, da sua história e o porquê de ser pouco abundante. Pondo de lado o tema científico que é sempre importante, se percorrermos os trilhos de colinas calcárias atravessadas por filões podemos ver em primeira mão as suas densidades. Uma aqui, outra ali, dois, três ou quatro exemplares juntos e pouco mais. É como se fossem solitárias, perdidas pelos montes, em busca de um bom habitat, de um sítio perfeito. Mas pode ser esta uma excepção à regra, e espero que seja, pois é me impossível percorrer toda a zona ocidental, na época de floração ideal. 

Parelha de cogumelos


Não apanho cogumelos, mas talvez um dia apanhe, um ou dois, para comer, ou para viver, sem nunca entrar num patamar de apanhar dez, vinte ou cestas inteiras, como muitos fazem. Dizem os especialistas que eles são como os frutos, e que se colhidos com sabedoria e bom senso, pouco ou nenhum dano é realizado no ser fúngico principal, o micélio. Mas e aqueles que não têm escrúpulos, e se dedicam a arrasar colónias inteiras de cogumelos comestíveis (ou não) para vender pelo chamado mercado negro, por quantias desconhecidas. Pessoas pobres, com poucos rendimentos, ou apenas para ampliar os que já os têm em abundância. Pois, sem regulamentação não sei o que será de vastas populações de cogumelos. Mas será que a apanha intensiva consciente faz algum dano sério, sabendo que o cogumelo é um fruto? Ambientalmente quero pensar que não, que os danos são mínimos, quando a apanha é feita por especialistas, mas, no entanto, faz-me muita confusão, e presumo que seja a maioria uma realidade, a apanha descontrolada e furiosa.
Por mim, gosto de os admirar, de os apreciar, com a visão, com uma fotografia, ás vezes nem lhes toco, mas até costumo os separar de galhos e folhas para a composição da imagem ser mais aprimorada. Isto pode soar um pouco a xoninhas, mas que o seja, se puder utilizar a visão como admiração por estes incríveis seres, e não o cérebro e o estômago para os saborear... E não me fico por boletos, russulas, amanitas, phallus e outros, adoro "saborear" à minha maneira aqueles microscópicos, de formatos e cores incríveis, em substratos diversos, que me põe literalmente de cabeça para baixo, mas todos eles me arrancam um sorriso...
Não quero apanhar cogumelos, mas quero vê-los, mesmo até, sem me importar em que espécie estão eles inseridos, como é o caso desses dois aí em cima...

Salticidae cor de fogo


Eis que estás magníficas e pequeninas aranhas se mostram sob as pedras calcárias. Cada pedra uma aranha, ou até mais que uma. Ou até macho e fêmea.


Nunca deixo de me impressionar com a coloração desta magnífica espécie...

Os estames da lagarta


Nas flores compostas da calêndula, esta pequena lagarta se passeia... Ou se alimenta...

Algas atlânticas


O rico património botânico marinho muitas vezes ignorado emerge à luz das marés.


Várias espécies de algas, de várias cores, discretas, claro...


No litoral Atlântico, ainda prosperam, em costas límpidas e selvagens. Servindo de abrigo para uma grande diversidade de formas de vida...

Pisco curioso contemplador


Os dias outonais que se seguem depois do estio, fazem com que os padrões de comportamento do pisco-de-peito-ruivo, Erithacus rubecula se alterem significativamente no que concerne à proximidade com os humanos. Atrás de moitas, atrás de arbustos, ou fingindo que faz outra coisa, ele aproxima-se, entoando curtos sons, ou se faz silencioso, quando a demasiada proximidade já deixou cair o pano da sua timidez. Mas fá-lo o tempo o suficiente para poder-se admirar o peito alaranjado que delicia qualquer naturalista. Um símbolo do outono, um visitante de inverno, um pássaro maravilhoso que perpetua no campo intocado, nas sebes verdes e húmidas, nos arbustos recatados, sob as ténues luzes pardas e quentes das primeiras e últimas horas dos dias europeus.

Castinçal do grande monte calcário


Para mim, viajante do norte, que sempre encontrou castanheiro em algum recanto do noroeste peninsular, que sempre viu as suas folhas amarelo-acastanhadas, que nem sempre esses castanheiros se pujam de ouriços avantajados como os seus parentes do leste interior, mas, que definitivamente, se me embalam as formas de um ser arbóreo de aspeto temperado, nortenho, fresco e boscoso, que a paisagem e o "sapiente" deixaram existir.
Deslocando-me para sul, ao longo das montanhas de cintura que apertam a bacia lusitânica, acabo em um lugar, tão branco e puro, tão mediterrânico e quente, que se encontrar aí algum bosque temperado, será a ilusão perfeita, delírio botânico...
Mas o assombro aparece quando a descida de um caminho acontece, e lá no fundo, mas lá no alto da montanha, eis que o grandioso aparece.
Primeiro são os ramos entrançados, depois são os troncos acastanhados e por último é a hera que trepa caminhos longínquos num abraço que vai perdurar, ninguém sabe quanto... Quantos anos eles têm, e quantos anos eles terão, quanta vida eles abrigam? Ninguém sabe, mas eu sei, e vi com os olhos do viajante nortenho, que estes castanheiros também se querem igualar, querem ser temperados, húmidos e fechados, para alguém se perder e fixar de uma vez agora, que no sul, especialmente nesta montanha dorsal branca, hã uns castanheiros perdidos de encantar...

Algures na Serra de Montejunto...