Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

Geneta, mémorias de Rodríguez de la Fuente

Nunca poderei esquecer o estranho efeito que em mim produziram as primeiras peles de geneta que vi nos já distantes dias da minha infância. Transportava-as no seu carro um daqueles almocreves que comerciavam pelas povoações de Castela. Num molhe copioso e matizado amontoavam-se flamejantes raposas, suaves martas e fuinhas, furões e meia dúzia de genetas. Então, eu não sabia ainda que os belos animais de pele cinzento-prateada, malhada de negro no corpo e adornada com uma tão longa e anelada cauda, se chamavam genetas. Depois de mexer bem nas peles de genetas do almocreve cheguei à conclusão errada de que deviam ser de gato.
Talvez a minha imaginação infantil transformasse em património exclusivo dos felinos a pele ricamente manchada e as garras afiadas e falciformes, mas o meu primeiro exame zoológico não estava muito errado, pois as genetas têm algo de gatos e cães, embora não estejam aparentadas com qualquer destes géneros animais.
Com efeito, os homens de ciência classificam estas gráceis criaturas entre os viverrídeos, carnívoros caracterizados pelo corpo longo, membros curtos e fortes, com cinco dedos nas extremidades, garras semi-retrácteis e glândulas perianais que produzem um intenso odor almiscarado.


 Mas, para nos apercebermos da gracilidade e completas qualidades físicas da geneta, seria conveniente observá-la em plena natureza, onde muito poucas vezes o naturalista teve oportunidade de a encontrar, pois trata-se de um predador noturno, de hábitos recatadíssimos. Iremos recolher quantos dados fidedignos tivermos dos seus costumes e, juntando-os às nossas observações de campo, apresentaremos a documentação que descreve o périplo noturno da geneta.
Na concavidade recatada de um velho tronco de carvalho, uma cabeça curiosa surge bruscamente. Contemplando-a pormenorizadamente, podem descobrir-se na sua face os mais genuínos traços do predador noturno. Os olhos, grandes e brilhantes, têm agora as negras pupilas totalmente abertas; mas, se as víssemos de dia, poderíamos verificar que estreitam, transformando-se em duas pequenas ventas verticais, semelhantes às dos gatos. Magnífica adaptação da íris para melhorar a visão noturna. Os grandes pavilhões auriculares, por seu lado, conferem-lhe um ouvido agudíssimo, e o focinho, trémulo, rosado e húmido, é a mais acabada expressão do olfato desenvolvido.


A geneta já desce, quase sem peso, pelo áspero tronco de carvalho. Nem sequer o gato poderia comparar-se-lhe em agilidade. De ramo em ramo, sem dar um passo em falso, sem fazer um ruído, a sua longa cauda compensa e equilibra como um balancim os inverosímeis movimentos. As pequenas mãos, digitígradas, de palmas nuas e sensíveis, aproveitam com as suas garras em forma de gancho qualquer aspereza da madeira para assentar. No solo, entre os fetos e a erva crepitante, a geneta avança com tanta segurança como pelos ramos. O seu trotezito leva-a até à margem do riacho, onde a temperatura é mais benigna e são maiores as possibilidades de caçar roedores. Nas suas deslocações noturnas tira bom partido da pele malhada, porque os desenhos negros sobre o fundo acinzentado decompõem a sua silhueta.


A geneta caçadora detém-se súbitamente. Um odor detestável chega até ao seu nariz com um sopro da brisa. Um par de saltos conduzem-na silenciosamente até à copa de um salgueiro segundos antes de aparecer, bojuda e segura de si mesmo, a velha raposa que anda durante todo o inverno por aquelas paragens. A geneta <<sabe>> muito bem que as suas armas de caçador não podem competir com as da raposa, com as do gato-montês, para não falar das do lince ou do lobo. A situação da geneta no equilíbrio natural é, portanto, das mais difíceis de sustentar sem sucumbir mais tarde ou mais cedo, porque é, ao mesmo tempo, predador e presa.
Tem de conquistar todas as noites alguns troféus para não morrer de fome e deve ainda pôr-se a salvo dos seus muitos inimigos, incluindo o bufo-real e as grandes águias. Daí os seus perfeitos dispositivos de segurança e ataque. Sem eles, a espécie não teria podido sobreviver, e há que ter em conta que a geneta é um carnívoro muito mais antigo que os seus citados competidores.


Mas o salgueiro salvador transforma-se rapidamente em teatro das operações cinegéticas da nossa protagonista: uma subtil emanação substituiu, na copa, o desagradável odor da raposa. A geneta ficou como petrificada e, lentamente, a sua face aguda, coroada pelas altas orelhas, vai girando como uma pantalha de radar na direcção de uma bola branca e negra que se eleva sobre um ramo natural da velha árvore. A meio metro da pega que dorme, todo o organismo da pequena caçadora se encontra na máxima tensão; e, como se um raio misterioso tivesse levado a sua ansiedade até à mente da pega, este tira súbitamente a cabeça de entre as penas e o seu perfil de corvídeo recorta-se vigilante contra o disco da Lua. Por uns décimos de segundo, a ave e o mamífero contemplam-se fixamente. Talvez o ranger de uma folha seca tenha despertado a pega e os seus finíssimos sentidos lhe tenham permitido localizar a sua inimiga, mas imediatamente a inerte massa cinzenta se desdobra como uma mola. As garras esticadas como um leopardo em miniatura; a boca entreaberta, brilhando a dentição perfeita; a incontida avalancha arrasta tudo: uns ramos que se interpunham no seu caminho, algumas folhas esquecidas pelo vento e a massa agitada e queixosa da ave. E tudo cai sobre a pradaria gelada. Mas os aguçados caninos da geneta quebraram o pescoço da pega.


As genetas, consideradas como nocivas porque destroem alguns coelhos, talvez perdizes e poucas aves de capoeira, são animais muito úteis para a agricultura, porque a base da sua alimentação é constituída por roedores: ratos, ratos-do-campo, ratos-d'água, ratos-dos-pomares, ratos-toupeiros, etc. Mas se a sua insaciável atividade no contrôle de roedores não compensasse bastante os poucos danos que pode causar entre as espécies cinegéticas, bastaria o fator estético que representa a sua beleza para que todos os amantes da natureza detivessem, tão cedo quanto possível, a insensata perseguição de que estes e outros belos predadores europeus estão a ser objecto. E basta lançar o olhar pelo mapa de distribuição desta espécie para se verificar que a geneta apenas se pode encontrar na Europa, no sul de França, onde já é muito rara, ou na Península Ibérica. Ela é uma jóia de que não temos o direito de privar os nossos descendentes, porque seria muito triste que as crianças de amanhã tivessem de aprender nos livros que um precioso animal, chamado geneta, predador de roedores, aves, répteis, batráquios e insetos, fora exterminado pelos seus avós. Os seus piores inimigos são as armadilhas e o veneno dos bicheiros, porque dos seus muitos competidores ecológicos já se libertou desde há milénios. Animal gracioso, belíssimo e domesticável - foi o primeiro "gato" dos egípcios - não deve desaparecer!

   Félix Rodríguez de la Fuente

Imagens captadas com recurso a uma trail camera, em um vale remoto de Mafra.


A geneta prospera...
Nos bosques, zonas florestais, áreas rurais, um pouco por todo o recanto oeste da Península Ibérica.


Pequenos mundos de, cor...


Não estando habituados a um mundo de olhar que não é nosso, o mundo macro, revela formas estranhas, tenebrosas, curiosas e intrigantes.


Para que servem ornamentos, cores e feitios? Porque são tão diversas as texturas?


Na imagem macro podemos encontrar um mundo escondido...
Sério, pulando a palha que escrevi em cima, estas imagens, são das que mais me dá prazer registar, talvez seja o ímpeto de cor e formas espetaculares que são raras no mundo dos meus olhos sem macro. Nós somos capazes de criar grandes mundos de cor entusiasmantes e alegres, no entanto seguimos uma linha perpétua de moda sempre escura e "cinzenta", que ninguém quer contrariar, ... Mas o mundo microscópico não quer saber, e usa todo o tipo de ornamentos floridos, e todo o tipo de beleza que eu ou tu possamos pensar. É isso que entusiasma, ... Quantas macros estão escondidas numa flor?, ... E numa semente? ... E no dorso de um inseto?
É isso que irei descobrir... 

o banho de sol da mosca


Até num outono tão chuvoso como em anos anteriores, estes pequenos seres, se entregam em bons banhos de sol, quando o astro se revela perante a nebulosidade densa que não dá tréguas... Os dípteros, ou esta magnífica mosca, descansa perante a luz dourada de um fim de tarde na praia de São julião.

Escondido o percevejo


 Tudo vale na evolução, até mesmo adquirir a cor das plantas onde o animal habita, pode ser uma vantagem, pode ser suficiente para escapar de uma morte rápida.


Cada tom de cor, padrão e textura tem um propósito,... Só precisa é de ser descoberto!

Scilla peruviana, as flores!




São de longe, uma das flores mais portentosas e exóticas, que o oeste peninsular nos dá... a conhecer! A sua mais ou menos raridade, lembra uma caça às trufas na hora de a procurar, e quando se encontra, uma ou mais flores, ou até pequenas populações, os queixos caem de admiração, e os olhos emergem das órbitas. Mas, tal como as trufas, estas também não me apanham a deitar-lhes uma mão ceifadora... gosto de observar... e maravilhar-me... com este encantador azul!

O outono dos choupos


Os ciclos da natureza, são mutáveis, giram e rodam, constantemente, como uma mudança inevitável e omnipresente no meio ambiente, que a sensibilidade deixa fluir, para com ela, embeber um cocktail de sensações que só cada um irá conhecer.


Todos conhecemos os choupos, em particular, os da espécie Populus nigra, que sendo uma árvore de porte considerável, é até bem fácil de se encontrar. Bem fácil de se identificar, com as suas folhas únicas e pendentes, com o seu tronco algo escuro, e em muitos exemplares, um ritidoma irregular com protuberâncias mais ou menos globulares, e de onde partem alguns pequenos rebentos folhosos.


Uma das mais coloridas árvores ibéricas do outono, com o vibrante amarelo a impor--se na paisagem e a engalanar, quem por elas passam.


A horta do calcário numa aldeia (de Sintra!)


É um privilégio poder cuidar de um pedacinho de terras calcárias do interior da grandiosa Sintra, mas mais do que isso, viver sobre eles a tempo inteiro, e sentir, que todos os dias, há um acontecimento natural que me enche as medidas... é emocionante...


Mais que uma horta para comer, a horta do calcário, dá-me vida, pequenos e grandes seres, que vivem ao ritmo das estações, do tempo e do clima, e até da própria pá da enxada, que molda a terra às vontades do eu homem, mas que também o eu dá descanso para que todas estas espécies possam prosperar. Acaba por ser um refúgio para um grande número de espécies animais sobretudo, já os outros grupos são mais errantes, e nem sempre aparecem como eu gostaria (pelas limitações do terreno, pelo uso e tipo de solo), eles são os fungos e algumas plantas.
Mas se isto é um refúgio, porque a Perdiz cá veio passar a noite? Isso mesmo, para meu espanto, seria talvez um dos poucos animais que eu diria que dificilmente bateriam as asas por estas bandas, no entanto, esteve aqui, e deixou marcas, para poder ser relembrada, e espero, que não seja "chumbada"...

Excrementos de Perdiz.
Quando as hortaliças são deixadas a crescer, impõe-se tempo para observar se algum dos troncos espalhados estrategicamente, já fez crescer cogumelos, ou outros fungos encrustados... Não, ou ainda não, parece que as abundantes chuvas deste outono ainda não acordaram as sementes da catita plantação fúngica, ... Terei de esperar (e não são para comer, são para as pulmonata, vulgo lesmas, que às vezes as devoram primeiro, ... primeiro até que os meus olhos os devorem, ... esses cogumelos)
Mas se os troncos não são, ou não forem desejados pelos cogumelos que tanto anseio, então os que já consegui fotografar, ludibriaram-me, e apareceram onde eles bem entenderam! Na palha sob a nogueira apareceram grandes e brancos, nos excrementos de cavalo, enterrados na terra para fertilizar as hortaliças também apareceram 4 espécies de pequenos cogumelos, e até no musgo do penedo calcário estavam dois... Pois é, afinal quem é que comanda o ritmo da vida?


As plantas são as rainhas deste pequeno espaço, mas desengane-se quem ache, que as hortícolas, frutícolas, e as ornamentais, compõe o grosso da vegetação, não, são sobretudo aquelas "daninhas" que eu tanto gosto, mas também uma boa percentagem de flora rupícola ruderal. São as urtigas de duas espécies diferentes, havia uma terceira, mas a mania da limpeza debaixo da nogueira, lamentavelmente acabou com ela, enfim, ... são as Parietaria, que gostam de invadir os muros de pedra, mas também protegem os interstícios e chamam os invertebrados para lá das suas cortinas, e são os fetos, menos abundantes, e toda uma panóplia de briófitas e líquenes, que chamam casa a este calcário cinzento.


Se a terra me dá tanto, não posso ser egoísta, em não retribuir-lhe da mesma forma...
Às vezes isso significa não intervir, não perturbar, e deixar, tão simples assim, que aquelas espécies para além de mim, possam coexistir, num ritmo sem fim...


Adoramos os pintassilgos...


Veneramos os líquenes...


By Rui Faria MR