Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

expedição ao rio tua (troço final) dia 2 conclusão

Com tanto tempo gasto a cá chegar, tive de despender 2 dias, embora seja a terceira vez que cá venho! E como o tempo corre procurei incessantemente por vida selvagem até ao raiar do dia. A noite foi mais monótona e o silêncio reinou no vale, os morcegos de várias espécies aproximavam-se de mim ali prestes a pernoitar num penedo á beira rio, chegavam e muito rapidamente davam a volta, serão longas horas de caça aos invertebrados noturnos, sobretudo traças (vulgo borboletas noturnas).


Mais um destaque para as magníficas formações rochosas do leito do rio.


Fiquei pasmado por ver troncos enormes presos nos freixos, Fraxinus angustifolia, trazidos por uma antiga e violenta cheia, mas o mais interessante é que se encontravam a várias metros de altitude a cima da linha do rio!


Uma amostra da rica floração de "abril" por estas bandas.


Aqui é fácil de a ver, mas no local demorei um pouco para a detetar, e quase que a assustava! Esta magnífica osga ali ficou completamente imóvel tomando sol mas confiando na sua magnífica coloração e camuflagem. Tive que usar o zoom da câmara quase no máximo para o réptil não fugir pois se me aproximava, decerto fugia!.


O bosque mediterrânico no seu esplendor: Pistacia sp, Olea sp., Quercus suber, Quercus ilex, Acer monspessulanus, Phillyrea sp, Pinus pinaster, Juniperus oxycedrus, Buxus sp, Fraxinus sp, etc,...


Característica erosão no leito e margens do rio.


E por último, encontro alguns exemplares desta magnífica Iris sp. na encosta sobranceira á margem esquerda.


Para terminar deixo a prova indescutível das mudanças repentinas que este rio irá sofrer!
barragem do tua, vista a montante 14 de abril de 2015



expedição ao rio tua (troço final) dia 1

apeadeiro de tralhariz e vale do rio tua
O objetivo principal desta pequena expedição a este belíssimo rio foi o de tentar registar o máximo de espécies animais e vegetais, bem como os aspetos mais relevantes da sua geologia, colher pequenas amostras de rochas e solos e das espécies vegetais mais icónicas deste vale, concentrando esforços junto ao leito do rio e margens adjacentes.

espetaculares formas geológicas na margem do rio
  Todos sabemos que a destruição deste lugar por meio de uma vasta albufeira (vulgo barragem) é inevitável. (É claro que como humanos que somos temos um enorme poder que é a decisão pelo que seria ainda plausível o encerramento desta destruidora empreitada!). Está para breve uma desflorestação tão destruidora que só foi superada pela barragem do alqueva! (que hoje caiu no esquecimento). Á muitas questões a debater ou que já foram intensamente debatidas e uma das mais relevantes é a se realmente iremos precisar desesperadamente deste empreendimento (certo é que daqui para á frente quando acender uma luz ou carregar o telemóvel vou-me lembrar disto!) em detrimento de uma paisagem única no mundo, única por que se chama vale do tua (que eu saiba não hã dois vales do tua!!!) e não é igual ao rio varosa, corgo, côa, sabor, távora ou outro qualquer rio noutra parte do mundo, se é que me faço entender!
Agora o julgamento fica a cargo do resto dos portugueses para debaterem e ou refletirem nisto da maneira que entenderem, mas quanto a mim é um dos locais, de entre os milhares que já visitei deste nosso Portugal, o mais magnífico, o mais ícone, o mais selvagem!!!,...

Falou-se muito dos valores culturais, naturais, patrimoniais ou outros demais acabados em ais, que, no meu entender não chegam sequer para dar a perceber o portentoso valor que este vale tem a quem nunca tenha pisado esta terra mas que seja um grande amante de paisagem e de vida selvagem. A linha ferroviária do tua sempre esteve em cima da mesa e só por si já devia ser suficiente para salvaguardar este paisagem ribeirinha. «Não há passageiros suficientes que mantenham os custos da operação das composições ferroviárias», então façam uma ciclovia ou percurso pedestre, ou viagens naqueles veículos antigos dos carris a pedal (não me recordo o nome), etc,.. Mas este ponto é uma pequena fatia do enorme bolo que é este vale, sendo que a maior fatia vai para á paisagem geológica e para a fauna e flora!
É importante frisar que todas estas imagens irão desaparecer para sempre, afogadas debaixo da "água do progresso"

Pois bem, como não disponho de viatura e as bicicletas não são ainda permitidas na linha do douro, desloquei-me então a pé partindo do Porto de comboio até ao destino no Tua. Para chegar a este magnífico vale com passagem em Fiolhal é preciso percorrer um longo caminho acidentado, mas que o fiz com o maior dos prazeres, pela belíssima paisagem que me oferece o lugar, pelos aromas das variadíssimas plantas transmontanas e pelo silêncio que impera.
Para finalizar esta introdução queria agradecer ao senhor (não lhe perguntei o nome) super simpático e hospitaleiro de furgoneta azul que me deu boleia até á aldeia de Fiolhal, um enorme abraço! E obrigado pela laranja!


  Vale do tua

A brisa suave que vem de montante força as sementes das Salix salvifolia voarem numa espécie de "neve primaveril".

O Buxus sempervirens ,aqui é um ícone á beira rio e tenho percorrido outros rios na tentativa de encontrar populações suas mas sem sucesso!
Buxus sempervirens
De folhas frescas e verdes cresce pacatamente entre a forte geologia local. Com as suas bagas, é muito abundante por aqui a par da Erica scoparia em inícios de floração.


Ranunculus sp em flor


O senhor deste troço do vale é o rabirruivo Phoenicurus ochrurus que entoa o seu canto empoleirado na rocha do leito do rio. Partilha este habitat com a alvéola-cinzenta e a alvéola-branca.



A alvéola-cinzenta á caça de insetos.



A alvéola-branca á caça de insetos no leito do rio.



Margem altamente rochosa.

 E segue uma pequena amostra de invertebrados que registei no/junto ao rio.





Continua no próximo post o segundo dia da expedição - "durante a noite os morcegos de várias espécies são muito abundantes e aproximavam-se de mim"

idade de um Pinus pinaster


Monocultura nas dunas de Maçeda. O recuo acelerado da costa obriga ao corte rápido das árvores da arriba.
Idade média da maioria destes pinheiros.

casal de cartaxos


              No planalto da serra da freita, esta espécie é a que mais facilmente se deixa mostrar.

caprinos e loureiro





Estamos num vale íngreme em Fafião (18-3-14) e o pastor segue a sua rotina diária conduzindo o rebanho de dezenas de cabras pelas encostas e beira-rio. Domesticadas mas de colorações "selvagens", camuflam-se no habitat florestal e por lá varrem o terreno em busca das suas plantas favoritas. De repente sou invadido por um odor a folha de louro, e lá estava uma a comer pachorrentamente a folhagem da Laurus nobilis, pelo menos a que conseguia chegar!
E isto já gerou algumas piadas em relação á sua carne (não por mim, mas por outros a quem partilhei esta história), se é que me faço entender!