Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

a cabra montês de Sintra


Como que evocando os grandes animais livres e selvagens do passado, as cabras, sempre associadas a sistemas montanhosos, de preferência locais de declive acentuado, rochosos e escarpados, locais de eleição de um ungulado peculiar e engraçado, que saltita nostalgicamente de penedo em penedo. É uma característica marcante que não salvou estes mamíferos da sua completa extinção ou diminuição drástica na península ibérica, nem mesmo os lugares remotos onde eles habitavam, de que é o caso, o extenso maciço da Peneda-Gerês, os resguardaram da fúria selvática e da perseguição desenfreada do homem...
Mas e então estas cabras claras, quatro indivíduos que pastam pachorrentamente sobre os penedos, esticando-se para chegar às folhas mais tenras dos pequenos arbustos mediterrânicos... Enquanto aquela descansa no penedo granítico claro, sob o sol ameno e as nuvens clássicas que se aproximam...


Mas pode esta espécie ter habitado, ou ter-se perpetrado num maciço isolado como este, o maciço eruptivo de Sintra? É plausível, sim, mas não foi possível a sua instalação devido à presença histórica muito antiga de seres humanos de diferentes culturas na serra. Impediram desde hà muito tempo, a presença de este e de outros ungulados maiores, bem como os seus predadores... Mas de facto dá que pensar e refletir, uma vez que estão reunidas todas as condições biológicas para a manutenção de uma hipotética população de cabras silvestres, desde os diversos pequenos picos íngremes de caos de blocos espalhados de oriente a ocidente, às encostas íngremes e repletas de vegetação altamente variada e mista, devido ás condições climáticas exclusivas do maciço... Seja pela representação de praticamente todos os bosques de quercíneas do país, e suas plantas portadoras, seja pela presença de espécies endémicas, e por uma grande variedade de matagais interessantes, fruto da ação contínua dos fogos antrópicos ou de origem natural, que diversificam a paisagem, e ao contrário do que está enraizado, contribuem para o aparecimento de uma grande variedade de espécies vegetais, e ao mesmo tempo impedem o fecho do bosque e o ensombramento, criando um mosaico, saudável e balançeado...


Por isso a cabra montês, tem aqui em Sintra um reduto único, e um lugar rico em alimento, repleto de abrigos e refúgios... Quem sabe lugar de uma hipotética subespécie confinada!



 Despreocupada com os dois lindos observadores MR.



Sintra...
by Rui Faria

Pieris em grupo


Mesmo depois de um rio ser desviado do seu leito à muito tempo para irrigação de campos, ou de uma alta barragem empobrecedora de vida, os espetáculos naturais nunca cessam, nem se interrompem, e são deslocados pelas condições locais ou pela floração de sítios super abundantes em alimento...
No que deveria ser esse leito, coberto pelas frescas águas que vinham do interior alentejano, que são aprisionadas pela barragem de Pego do Altar, e pelo canal de irrigação, está agora a pequena cascalheira a descoberto, frondeada por potentes e altas exóticas que se estendem pela zona calma... Mas as borboletas Pieris concentram-se ali para o festim breve...

Montejunto (a subida)


Tens uma força incrível amparada nesse corpo, e nessa mente amorosa que me faz voar, viver e amar, te muito, sempre, naquela subida pela serra, árdua e calorenta, de olhos postos no que se mexe, nas "brabletas", maravilhosas, que povoam campos e matos, mas naquela que a gente procura, uma das mais belas, a borboleta-pavão... Mas eu sei que são caminhos íngremes, que custam às pernas, às minhas e às tuas, às nossas, por entre pedras e cumeadas, estradas apertadas e com ervas perigosas que escondem aquele aracnidae avermelhado... e sentamos de quando a quando, contemplando, o horizonte, e lá mais ao fundo, respirando e absorvendo tudo, olhando, de olhos fixos e lábios encarnados, sedentos, pelas águas puras e frescas, por um gole demorado... Mas olhando para cima e para o alto, para o quase, e está quase, cada vez mais perto, mas devagar e a contemplar, vamos ter de desbravar matagais, para passar e continuar, de sorrisos eternos nas bocas tua e minha, de espírito forte e jovial pela montanha acima... por trilhos sem  parar...
Montejunto, monte dos montes juntos... unidos...


by Rui Faria

afundamento de estratos (Espichel)


As linhas sobrepostas de material sedimentar prê-histórico, derivadas de grandes sistemas aluvionares, depositadas lentamente umas sobre as outras, criando um padrão distinto e facilmente identificável, que só a linha de costa mostra no seu estado natural e selvagem. Já o sol descendente, acentua as cores destes belos estratos, cortados e presos eternamente pelo espesso manto botânico que cobre a superfície...
by Rui Faria

jovens andorinhas-dos-beirais


Curiosas, são estas jovens andorinhas-dos-beirais, que se juntam num grupo denso no paredão da barragem de Pego do Altar, desfrutando do sossego e da pacatez da zona. Esvoaçam barulhentamente, enquanto caçam os insetos alados que abundam no vale apertado...







by Rui Faria

graminhal da stipa


Graminhal dourado, abraçado pelo vento, na imaginação dos montes e vales, picos que dizem picar-te, mas não picam, nem ferem, ao redor de altas hastes, de altas plantas, que bailam sem fim, assim caminhas pelos trilhos dourados, deitados esses caules pelo peso da gravidade, e pelas sementes que se desprendem, que se agarram a nós, espetando-se como parasitas carraçadas... Somos levados pela viagem estrelar, de um monte mais uma vez dourado e enorme, de uma penedia, que força a fixação das gramíneas, e não é senão o restolho, que até ao verão, emana doces aromas, pela brisa diária, ou pelo interessante bafo tórrido dos últimos dias primaveris cansados, ou pelas últimas flores resistentes e duras... Estamos embalados, sempre... pelas músicas melodiosas no ouvido, e com os prados no coração, pradarias selvagens e o graminhal dourado...
Pelo monte da Stipa...
Histórias selvagens...
by Rui Faria

bolsas amarelas de ononis


A Ononis ramosissima cria largos tufos densos de flores amareladas apertadinhas, que confere à flora local uma luminosidade interessante e um grande destaque, nas falésias a norte da praia do guincho.