Desenrolar dos fetos no bosque escuro, ultrapassado pelos raios de sol matinais, envoltos por cíclicas névoas místicas. Acelerando o tempo, damos conta que esse desenrolar se abre numa comunhão perfeita, num entre abrir de folhas que esperam para se soltar, uma de cada vez, uma a seu tempo, desprendem-se da bola que as formou até terminar a última folhinha da pontinha e o feto está terminado e bem desenvolvido, aberto à plena luz e de mão largas no solo daquele bosque, um adulto que já foi jovem e pequenino broto, verdinho, que despontou da terra húmida e fresca... fetos!!!
Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...
feto (o desenrolar)
Desenrolar dos fetos no bosque escuro, ultrapassado pelos raios de sol matinais, envoltos por cíclicas névoas místicas. Acelerando o tempo, damos conta que esse desenrolar se abre numa comunhão perfeita, num entre abrir de folhas que esperam para se soltar, uma de cada vez, uma a seu tempo, desprendem-se da bola que as formou até terminar a última folhinha da pontinha e o feto está terminado e bem desenvolvido, aberto à plena luz e de mão largas no solo daquele bosque, um adulto que já foi jovem e pequenino broto, verdinho, que despontou da terra húmida e fresca... fetos!!!
névoa e herbivoria
Na névoa negra e despida, envolta pela humidade suspensa e latejante e de um clima frio tipicamente montano, o garrano pasta na sua indiferença, no pasto raso e antigamente queimado, mas avança indiferente ao desabar da tarde e à escuridão que se avizinha, é como se a névoa envolvente oferecesse segurança sob um manto transparente mas denso e pontilhado por uma infinita quantidade de gotículas de água. As giestas querem ser árvores e resistem ás condições agrestes da serra alta, querem e algumas até o são de facto, mas as outras árvores já abandonaram o local à muito, deixando para trás o solo agreste e pedregoso atapetado pela vegetação rasa impulsionada pela herbivoria, que assim regenera espécies perdidas e ajuda aquelas em dificuldades, mas se a pressão for demasiada, o solo pedregoso pode voltar a ser uma realidade...
Outra vez dizer que as árvores morrem de pé, e o tronco dos pinheiros queimados permanece ereto e resistente ao passar do tempo e às potentes intempéries ou ao profundo sossego e solidão da montanha.
E nesses tempos passados a descer a encosta para não apanhar a escuridão que avança sob a paisagem a um ritmo veloz, surpreendentemente rápido na névoa cada vez mais densa. Perder-me e encontrar-me é nostálgico, mas na realidade não me perco, apenas me afasto ligeiramente do caminho plausível no descer daquela encosta, mas porque não?
O caminho é frio, mas o coração palpita-se quente e acolhedor pela magia de observar a conjugação dos elementos atmosféricos, astrológicos e geológicos...
cristas xistosas
Para oriente da serra de Pias, a terra parece que foi aspirada ou varrida, criando esta espetacular formação de cristas xistosas. Natural sim, mas influenciada obviamente por fatores externos e de caráter antrópico, como o pastoreio intensivo, o corte de árvores e a roça de matos, e naturalmente os incêndios cíclicos. É por estes recantos que visito uma vez e outra em busca de novas plantas, mas já sei que as conheço na sua maioria, de invertebrados se a época quente se propiciar ou de texturas geológicas, mas no final procuro algo, ... procuro o que não estou à espera, sem instintos, porque se há coisa que aprendi, foi que se esperarmos muito algo, essa espera torna-se em desespero, e só a sorte pode acabar imediatamente com esse desespero, ou por último o inesperado, que provoca aquele sorriso intemporal e que nunca se esquece!... o sorriso de, finalmente chegou, ou finalmente encontrei, ou finalmente sou...
Mas e o percorrer destas cristas com sabor a terras selvagens e lugares remotos...
Inolvidável...!
bosque mistério
Sobre a áurea do tempo misterioso, cai o pano de fundo no bosque mistério, portentoso, nos raios de sol que o atravessam, dilacerando emocionalmente o ambiente, e sempre, desde as mais belas manhãs ensolaradas, e desde a posição característica do astro rei. Oh que belo arvoredo pintado pela luz e a vida que se absorve no sentido e em um sentido, e agora neste lugar iluminado e os ritidomas na escuridão e à contra-luz. Sentindo na pele o calor quente, e eu estático, absorvendo e observando mais uma vez, com a sensação do solo húmido, mas a humidade sem a ver, com a sensação inexplicada e um meio que me atinge pela manhã... e nesta minha razão de ser, de abraçar algo, este bosque, abraçá-lo com a visão e caminhando delicadamente pelo solo empapado e molhado com a vegetação herbácea competindo muito lentamente por aquela luz escassa que penetra pelo meio das copas, ramos e raminhos, e folhas que já não existem das árvores de folha caduca, mas também pelas folhas das árvores exóticas, as usurpadoras sem culpa que tomaram este habitat...
Olhando para trás vejo o bosque nítido e bem formado, olhando para à frente vejo a contra-luz e apenas as formas, serenas e quietas bem ou não delineadas, se são assim essas formas!... A Rubus encavalita-se, sobe-se a si mesma e precipita-se para cima, para os lados, para... expande-se na dominância e dominando mesmo o baixo estrato florestal e sufoca as pequeninas plantas que já não mais espaço têm, e partem, e disseminam-se noutras terras livres e airosas, para prosseguir um ciclo, ou mais um e outro, e por aí fora. Mas deixo a sensação outra vez tomar conta de mim e do meu corpo, e até os cheiros e odores, fundem-se numa experiência própria e única para meu deleite, quase uma união abraçada, ou um abraço caloroso e apertado que tanto faz bem, ... e o tempo pára, e será que parou? Aqui no bosque misterioso, no bosque...
Vale de Cabeda
by Rui Faria
Linaria triornithophora
Flores de agulhas rosadas no meio da vegetação incensa, vistosamente escondidas e maravilhando os olhares penetrantes que atrevidamente entram pelos arbustos dando de caras com três flores, três belos e belas formas de destaque floral, um apêndice ereto que as leva até à luz, até à fase do seu crescimento climáxico. Mas de costas voltadas e de cara à cara com o entorno apertado daquela vegetação que as viu nascer.
Folde Oeste da serra da Cabreira.
"a ilha das gaivotas"
Na verdade, ilha, foi para criar um certo ênfase e empolgação que este banco de areia a norte do Furadouro, poderá fazer lembrar carinhosamente uma ilhota, e em jeito de infância, apontar o dedo para lá e dizer, olha a ilha!!! Isto é quase um especial para as crianças que possuem uma imaginação muito produtiva, repleta de questões e sonhos sem fim, que se vão perdendo na idade adulta, mas porque eles se perdem?, se o entorno, nosso ambiente, está repleto de motivos pulsantes para sorrir e viver... As crianças têm as histórias e os sonhos, mas já os mais velhos e sábios recontam-nas no saber da experiência acumulada em décadas passadas. E nessa idade revivem um pouco da criança verdadeira que um dia foram...
E então eu uso a minha veia de criança, e vejo os pássaros ali poisados na areia escura sob o céu e as nuvens, já o mais sábio explica que são gaivotas oriundas dos países do norte da europa que por cá passam o inverno, nomeadamente a gaivota-de-patas-amarelas e a gaivota-de-asa-escura... e estas repousam na tranquilidade desse banco de areia a descoberto da maré baixa, mas criado pelo recuo da costa dunar, e acumulado na frente marítima.
Mas a criança quer correr livre pela praia e nem sequer passa pela cabeça em ser friamente gozada pelos outros, isto se fosse um adulto, ou poderá pensar-se que é um maluquinho! Mas aquele homem e mulher que o faz sem prestar importância a esses dizeres é mesmo um grande homem ou uma grande mulher de bem consigo mesmo, ...mas não corras para junto das gaivotas, pára ali, e segue a correr alegremente pela praia, de pés descalços, sente os grãos de areia finos e suaves desta praia, desvia-te para a leve rebentação e molha-os e refresca-te, não importa o frio, não importa o calor, não importa o vento,...
Não percas a criança que há em ti, porque se a perderes, os sonhos perdem-se também...
Liberdade... Vida... Amor...e Paz...
by Rui Faria
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