Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...

a textura da Flora

Não deixes de reparar nos detalhes, nos pormenores, na beleza de cada cor, de cada linha, nos altos e baixos que descem o capítulo de cima a baixo, no violeta, no roxo, mas o laranja vai-te realçar a visão, e vais perceber e perguntar novamente, o porquê dessa estranha mistura de cores, e porque o verde se intimida e se esconde acima do laranja. 
Nem tudo se pretende linear, nem tudo dá para entender, mas tudo pode ser interpretado!
Nem tudo devia ser belo, mas o pensamento individual é que comanda essa decisão! São as reflexões que retiro agora por aqui, estagnadas, e incompreendidas, mudam ou evoluem consoante o estado de espírito, do próprio leitor que se delicia ou não com as palavras!  


Desculpem-me a abstenção de quaisquer termos científicos, (ás vezes a ciência é aborrecida!), mas ok, estava inspirado pelo que quis mostrar uma visão mais abstrata do mundo natural!

by Rui Faria / Serra da Amoreira

o senhor Pisco!


O pisco-de-peito-ruivo, a ave mais simbólica dos nossos bosques, campos e sebes, atrevidota, quase que a querer observar o nosso comportamento, e curiosa, com ele deixa-se estática, observando o regalado observador! Os bosques ibéricos, sem estas belíssimas aves não são as mesma coisa! Sem o seu canto melodioso, que ecoa nas manhãs primaveris e sem a sua rechonchudice e o peito ferrugíneo característico. Em tempos, em que uma boa parte da fauna se tornou tímida face ás agressões constantes do Homem, é uma alegria ver a espontaneidade deste pássaro.



frente

trãs
                                    Erithacus rubecula, bosque aluvial de salgueiros, Leandro!

líquenes no pinhal


A mega plantação de pinheiro-bravo Pinus pinaster nas dunas holocénicas a sul do Furadouro, trouxe na bagagem a diversidade espetacular de líquenes tão característica deste nosso cantinho peninsular. O grande ajuntamento que caracteriza essa vasta plantação, só poderia permitir a fixação em abundância destes seres vivos. Mas como é possível ignorar um grupo, das quais resulta fascinantes uma das suas adaptações ás superfícies, aparentemente sem nutrientes como os minerais, vulgo rochas e ritidomas. Mas ainda pouco sabemos, acerca deste reino animal, que parece ser uma mistura de dois reinos, dado a presença de algas, aparentemente parasitadas por um fungo. Ora sabendo que por exemplo, os líquenes podem coexistir num ritidoma por exemplo, lado a lado com pequenos cogumelos e briófitas, o que por si só torna as questões da sua biologia ainda mais interessantes, e a sua relação com os outros grupos de seres vivos no mesmo micro-habitat bem complexa! 


Arribas, Costa da Caparica


Pequenos troços de costas selvagens, por toda a costa portuguesa envoltos em mistério, guardado por processos naturais ainda fortemente presentes. As praias banhadas pelas águas límpidas ainda são uma realidade, a vegetação tenta a toda a custa fixar as areia levediças e saltitonas, e consegue-o, formando vastos cordões de plantas curiosas e com todas as adaptações características que as permitem sobreviver num ambiente tão inóspito. Fixar areias não é fácil, é preciso enraizar raízes profundamente no solo, e ter uma estrutura que permita a planta passar ano após ano pelas fortes intempéries que se repetem durante a estação fria.
A costa, tal como uma auto-estrada com estações de serviço, é uma via movimentada, para um dos grupos de vertebrados mais estudados do mundo: as Aves! Dezenas de espécies percorrem todos os anos para cima e para baixo essa vasta rede costeira, parando para repor energias e deliciar observadores de aves! 
Mas o que tem a costa de tão especial? Porque um pôr do sol é tocante na praia, ou duas gaivotas são retratadas em pinturas no mar junto a um barco à vela, de lado?.

As arribas da costa da Caparica, representam isto, e ainda mais, uma duna que amadureceu com o tempo, se tornou forte, e permitiu o aparecimento de espécies impossíveis de se fixarem em dunas mais instáveis e a cotas mais baixas! É uma linha de costa única, que por certo forma uma barreira intransponível para os grandes vertebrados, uma verdadeira barreira terra-mar!

Arundo donax- a questão

Se há planta que me tem intrigado, essa é a cana Arundo donax. Sempre fui em busca da originalidade de cada planta que cá temos, ou melhor cada planta silvestre que pode ser encontrada nos locais bravios. mas sempre fiquei com a impressão, de toda a informação que recolhi, que esta espécie é exotica, e foi trazida à muito tempo, mas ainda tenho as minhas dúvidas. E o mesmo se aplica ao Populus nigra, Ficus carica, e outros!

 Uma coisa é garantida, sendo ou não autóctone, é muito prolífica, e pode-se apoderar completamente de um habitat, mas as canas que sempre observei na restinga dunar da foz do douro sempre me levantaram questões! Também me levanta questões os indivíduos dispersos por barrancos , ribeiros e cursos de água de leitos secos espalhados um pouco pelo centro e sul do país. Para esses , parece-me bem integrados na paisagem com o resto das plantas silvestres. Agora se há lugar onde poderemos chamar-lhe invasora, é em muitos remansos e orlas de campos, mais frequentes no Alentejo e Lisboa com linhas altamente densas desta espécie.


A imagem acima foi tirada num leito de rio seco, às portas de Moura, perto da estrada, que liga a Safara!

Águia-calçada / Valongo


Mais um grande incêndio assolou as serras quartzíticas do anticlinal de Valongo. Arderam, zonas que à muito não tinham ardido, e outras que voltaram novamente a arder... 
Mas a natureza é resiliente, e a recuperação é um processo, com o interruptor já ligado. Mas posto, isto, prossigo pelo vale de couce, e leito do rio ferreira, em busca de novidades, em busca dum momento que ainda não vi nem registei, em busca de conhecimento! Pelo andar do texto poderia dizer, que este achado foi na sequência da frase anterior, mas não!, estava eu a ir embora, quando estou a passar pela aldeia, olho para cima, e pensei logo no abutre-do-egipto, mas sabendo que era, a maior águia, que à muito tempo vira. Mas eu já vi a maior de todas, ainda na década de 2000, julgo que 2005, uma grande águia-real, como a fénix, em Moura, tão depressa apareceu como desapareceu! Momento inesquecível!

Esta águia-calçada pairava e planava relativamente baixo o vale, aos círculos e por cima da aldeia, mas que a minha ânsia de fotografar, talvez a tenha impelido a voar um pouco mais alto, no entanto, pareceu-me ser muito menos tímida que as águias-de-asa-redonda, muito comuns por aqui!
Quem não gostou foi um peneireiro (sp?) que a afastou!





by Rui Faria

Triângulos no Tua


O leito do rio Tua, em breve nunca mais será o mesmo, vai deixar saudades, a quem, perscrutou, os seus recantos prístinos e segredos guardados!
Hoje partilho um aspeto geológico interessante na escarpa junto da margem esquerda, a escassos quilómetros da sua foz no rio douro. Quatro triângulos incrustados na rocha, assimétricos, em linhas antrópicas quase primitivas! 

O leito do rio Tua, em breve nunca mais será o mesmo, vai deixar saudades, a quem, perscrutou, os seus recantos prístinos e segredos guardados!
Hoje partilho um aspeto geológico interessante na escarpa junto da margem esquerda, a escassos quilómetros da sua foz no rio douro. Quatro triângulos incrustados na rocha, assimétricos, em linhas antrópicas quase primitivas! 
A explicação segue-se então: 
Por conseguinte, o que se observa é a interseção de várias superfícies de fratura. É uma rocha metamórfica que foi sujeita a pressão segundo várias direções, e como a rocha não é muito deformável, acabou por estalar, resultando uma espécie de cunha em que aquele prisma de rocha acabou por sair. Portanto, resumidamente, da interseção dessas superfícies resultaram formas geométricas que saltaram e já lá não estão, e é isso que vemos na imagem, esses espantosos triângulos! Uma belíssima formação rochosa que se terá formado no fundo do mar há milhões de anos, numa altura em que apenas seria lama sedimentar, com o passar do tempo, acabaram por se formar essas formas triangulares segundo a explicação dada em cima.

Um especial agradecimento a Manuela Nobre, que gentilmente ofereceu a interpretação desta formação geológica.