Um olhar sobre a natureza do oeste peninsular, o meu olhar, com histórias e imagens, contos e pensamentos... Viagens...
glacial valley of Gerês
Vista diagonal do vale em U da direita (em cima) para o centro. E o destaque para os 3 vales que se unem no centro da albufeira da Caniçada.
O magnífico vale glaciar do Parque Nacional da Peneda Gerês:
Mais propriamente tratando-se de uma falha geológica (falha geológica do Gerês-Lovios), esta está relacionada com tensões que levaram a uma fraturação tardia, que cortou e deslocou os granitos da região. Tem uma direção NNE-SSW e é responsável pela deslocação dos vales dos rios Cávado e Homem e pelas nascentes termais da Vila do Gerês e do Rio Caldo. Pela plataforma de observação terrestre da google, esta falha evidenciam-se dentro da área do parque nacional, em uma linha reta perfeita. (fonte: http://www.icnf.pt/portal/ap/resource/ap/pnpg/brochur2013)
É um típico vale de perfil em U e moreias laterais evidenciando a ação de antigos glaciares. Há 2 milhões de anos, no Quaternário, ocorreram importantes variações climáticas que contribuíram para a formação deste terreno tal e qual como o conhecemos hoje. As glaciações então registadas atingiram as latitudes médias deixando marcas evidentes nas serras da Peneda e Gerês, como circos e vales glaciares. Este em particular tem um perfil em "U" em vez de "V" típico dos vales fluviais. Encontram-se ainda depósitos de materiais arrastados pelos glaciares, acumulações de calhaus e blocos, mais ou menos alinhados, designados por moreias. Formações geológicas de grande beleza natural e de proporções épicas, deixam o passado glaciar para trás, para hoje se verem revistadas por uma rica e variada floresta, no caso deste vale, que lentamente se ocupou destes terrenos íngremes e húmidos. As elevadas quantidades de precipitação que se fazem sentir ao longo do ano com maior incidência no Inverno, fazem o verde predominar, verde das grossas capas de musgos de diferentes espécies que se acantonam nas penedias e por todo o material lenhoso e ritidomas. Almofadas musgosas como lhes costumo chamar tal é a grossura dessas capas. Diferentes espécies de briófitas sucedem-se por todos os substratos encavalitando-se umas nas outras.
Relíquias de uma época mais quente (terciário) e anterior á formação deste vale como seja o azevinho Ilex aquifolium e Prunus lusitanica, encontraram lugar lado a lado ou quase lado a lado com os medronheiros Arbutus unedo por exemplo! Medronheiros possantes e maciços na serra da preguiça, tão antigos e tão maravilhosos,...
Estas três árvores, com especial incidência para o azevinho proliferam pela manta florestal, ajudadas em muito pela dispersão dos vertebrados. A imagem abaixo é alusiva desse aspecto, em que as sementes das bagas passam pelo trato digestivo do animal quase intocadas. Fotografada no local num trilho de acesso ao alto da serra do gerês.
Digo azevinho, porque foi a árvore com regeneração mais abundante que observei ao nível de pequeninas plantas, pequeninas árvores indicadoras da complexidade tridimensional destes bosques.
O jovem Erithacus rubecula, começa a entoar o seu leve canto, e tal como os adultos, não é muito tímido e aproxima-se, curioso! Afinal, os genes dos adultos destemidos transmitem-se em força, aliado a isso uma terra como esta com pouca perturbação e sem caça. (pisco-de-peito-ruivo)
Um dos maiores fetos-comuns Pteridium aquilinum que já havia visto, com mais de 2 metros de altura e frondes largas e grossas, em zona de meia sombra, cresce desmesuradamente!. Em muito contribui os férteis solos e a abundante precipitação bem como as condições micro-climáticas do local. A par da Culcita macrocarpa e de Osmunda regalis, são as maiores pteridófitas da península ibérica.
| Argynnis sp. |
| Hemiptera sp. |
Os cursos de água que se encontram no rio principal, o rio que dá o nome à famosa vila, encontram-se todos com o caudal muito reduzido, ora não estaríamos no início de Agosto!, pequenos fios de água refrescantes que descem os seus cursos habituais mais silenciosamente. Novas áreas ficam expostas com o abrandar das correntes, criando uma nova série de micro-habitats temporários para invertebrados e anfíbios,
Feto-real Osmunda regalis a cerca de 800 metros de altitute.
Os dípteros de imensas espécies, são como seria de esperar super abundantes, por aqui. Com as suas colorações intrigantes e tamanhos diversos, surpreendem-me!
| Panaxia quadripunctaria |
| Lacerta schreiberi, lagarto-de-água juvenil |
| Acer pseudoplatanus |
Acima, um achado curioso num tronco de um medronheiro: uma imagem de um percevejo Hemiptera que tem um disfarce peculiar, e mimetiza as formigas pretas, que também se encontram por perto (imagem esquerda), pela imagem desse percevejo, deduzo que não tem asas, ou reduziu-as na evolução para se assemelhar cada vez mais às formigas. Até o seu movimentar é em tudo semelhante a elas, com movimentos rápidos e aleatórios seguidos de paragens bruscas e imóveis. Mas porque terá adquirido este mimetismo? Terá no seu ciclo de vida alguma relação com as formigas? Parasitária?, ou será simplesmente a velha e clássica história de ludibriar os predadores? Qualquer que seja o motivo ou os motivos (porque nunca existe um isolado), é um inseto fantástico que retrata muito bem até onde os invertebrados são capazes de ir, mesmo relações que à partida para nós parecessem estranhas, "é como se uma vaca se disfarçasse de cavalo!". Isto é, estamos a falar de hemipteros (cima) e himenópteros (esq.), mas não é novidade porque existem imensas relações deste género em outros grupos de insetos, uma mosca que emita uma vespa, uma borboleta que imita uma vespa, uma lagarta que imita uma centopeia, e por aí fora!...
Bosque de Prunus lusitanica com imponentes Quercus robur.
Para mais informações sobre este vale consultar "A glaciação plistocénica da serra do gerês" http://www.ceg.ul.pt/finisterra/numeros/2000-69/69_03.pdf
by Rui Faria- in north of Portugal
(todas as imagens deste blogue são registadas por mim, Nikon P600)
Equinos, monte do Merouço
Não são garranos, e até podem ter sangue árabe ou outros, mas insisto, que o papel que eles desempenham na diversificação da flora é indiscutível ...
As notas que preencho em papel na observação destes animais são incompletas e o meu vocabulário escasso para vos explicar tudo aquilo que vejo e sinto nestas pequenas "manadas". Mas na interpretação da imagem acima por exemplo, posso vos dizer, que só a sua acção contínua, permite a entrada das herbáceas e gramíneas por entre os matagais de Ulex, e o resto vem por catadupa, os trilhos que criam e os aracnídeos que ganham corredores de caça para ás suas teias e os mamíferos de pequeno porte, vêem as suas áreas de caça ou alimentação "melhoradas".
Super floração de Ulex minor de permeio com Pteridium aquilinum.
No ano passado 5/8/14 by Rui Faria
tipologia de um barranco
Moura (são joão batista), local diferente aos que estou habituado cá no norte, até num esquema de precipitação mais violento e repentino, penso que na sua maioria responsável por este grande rasgo com 20 a 30 metros de comprimento. Tudo começou com um pequeno trilho serpenteando pelo campo diagonalmente, que com o passar dos anos por acção de chuvas fortes se foi aprofundando, criando um mini canhão, como se um gigante tivesse arranhado o solo, mas será mesmo esta explicação assim tão simples? Bem, tenho consolidado cada vez mais que o simples ou a simplicidade parece reinar no mundo, mas tendo sempre uma complexidade grande que responde ao nosso hábito de detalhar eventos ou algo, sobretudo com uma grande variedade de palavras!
Curioso como sou, consegui encontrar flora específica que se acantonou nas paredes íngremes desse rasgo e cogumelos no outono e também vestígios das andanças de pequenos mamíferos curiosos.
fósseis-belemnites
Estes fantásticos animais prê-históricos (Belemnoidea), marinhos, e muito semelhantes ás lulas modernas, carnívoros na sua época, alimentavam-se de peixes e invertebrados marinhos, proporcionalmente ao tamanho de uma espécie em particular, das quais seriam várias. O período carbonífero viu nascer e contribuiu em certa medida para a proliferação destes seres durante centenas de milhões de anos até à sua extinção a par da dos dinossauros, presumindo as ainda escassas informações que possuímos sobre esse último evento. Um facto curioso é que ao contrário das lulas que estamos habituados a ver, estes não possuíam ventosas, em vez disso teriam uma série de ganchos, certo que suficientes e/ou diferentes para o tipo de presas que capturavam!, algo futuramente aprimorado com o tempo ou evoluído em espécies paralelas e/ou primas!
E tudo isto mesmo à superfície dos espantosos calcários em forma de placas deitadas da serra da boa viagem, repleta de fósseis de animais, plantas e vestígios de dinossauros, uma grande e completa secção estratigráfica diria eu! De facto, o mais interessante, como dizia ao princípio, é pelo facto de todos estes fósseis estarem incrivelmente visíveis e não ser necessário escavações, as observações diretas bastam, e as fotografias registam e complementam o estudo para quem é aficionado por seres prê-históricos. A apanha é condenável e altamente danificadora deste nosso património único, um promontório quase peninsular com uma beleza sem igual!!!
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| belemnites: corpo inteiro e "corte anelar" |
viva os escaravelhos! C. arietis
| Clytus arietis |
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